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11 de outubro

Luiz Carlos Merten

14 de outubro de 2013 | 07h35

Eis-me em casa, depois destas três semanas de périplo pelo Rio e por Londres. No sábado, consegui assistir no Festival de Londres à versão restaurada de Model Shop, de Jacques Démy. É curioso que depois de tanta Première Brasil no Odeon da Cinelândia – exceto nos dias em que o pau comeu -, fui ver o Démy no Odeon da capital inglesa. Há um mistério Démy, um mal-entendido Démy. Jefferson Barros, talvez a inteligência mais brilhante que conheci, apoiou-se justamente no que chamava de ‘lirismo mentiroso’ de Os Guarda-Chuvas do Amor para enterrar a nouvelle-vague, em meados dos anos 1960. É o que dá ter testemunhado a história – para muitos jovens, estou falando em referências bibliográficas. E o mal-entendido é que o lirismo do marido de Agnès Varda nunca foi mentiroso e, mesmo nos Guarda-Chuvas, ele foi um raro autor que, no cinema francês da época, ousou abordar o tema tabu da Guerra da Argélia. Dito isso, foi muito interessante rever o filme americano de Démy, o encontro de Lola, Anouk Aimée, com o astronauta de Stanley Kubrick, Gary Lockwood, naquela Los Angeles fantasmagórica que depois inspirou (foi uma de suas fontes) o longa do filho do cineasta, Mathieu. Vi também, mas aí já foi na programação regular, Prisioneiros, o novo filme do diretor de Incêndios, Denis Villeneuve, que aborda a América pós-11 de Setembro como Steven Spielberg, sem citações diretas. Um belo confronto entre Jake Gyllenhaal e Hugh Jackman, esse último como pai de garota desaparecida que sequestra o suspeito liberado pela polícia e o tortura como a administração Bush Jr. em Guantánamo, torturava suspeitos de terrorismo. Jackman é religioso (no filme), tortura em nome de Deus, porque o outro, segundo ele, é lixo. ‘América!’ Lembro-me da amargura do velho imigrante dizendo a palavra em Amigos parta Sempre, de Arthur Penn. Gyllenhaal procura as garotas (são duas) e o suspeito desaparecido, e tudo termina num desfecho forte, mas eu quero rever Prisioneiros porque tenho de admitir – ver filmes muito dialogados em inglês, sem legendas, me deixa tenso. Não relaxo na poltrona para fruir o filme,. preocupado que sempre estou com a informação contida nas palavras. E o cinema é a fruição – para sonhar, mesmo quando o sonho vira pesadelo. Quero acrescentar que meu voo de ida foi Rio/Paris/Londres e, em Charles DeGaulle, enquanto esperava a conexão, pude ver nos noticiários de TV que a data, 11 de outubro, era muito importante. Será que alguém se lembrou no Brasil? No mesmo dia, em 11 de outubro de 1963, morreram Edith Piaf e Jean Cocteau, e a França celebrava o legado de duas figuras emblemáticas de sua cultura. Vale registrar que a data veio acompanhada de muitos eventos. Não sabia que Pierre Bergé, o companheiro de Yves Saint Laurent, tem a tutela moral – não os direitos – da obra de Cocteau, o que significa que nada do autor pode ser feito sem sua aprovação. Saiu/está saindo a versão restaurada de A Bela e a Fera, estão se realizando retrospectivas e exposições. Cocteau (re)vive e todo mundo dava destaque à frase dele – ‘Je vous emmerde, je sais, mais, excusez-moi, j’ai les moyens de vous emmerder encore plus.’ Todo mundo lembrou o necrológio de Jean-Luc Godard em Cahiers, não sabia que ele tinha feito. Godard e Cocteau parecem tão diferentes, mas olhem o que Jean-Luc escreveu – é uma citação de memória, não textual. Em obras como  Le Sang d’Um Poète e La Belle et la Bête, Cocteau inventou a arte de fazer um filme que não é bem um filme (e aí não são tão distantes assim). Em Libé, Elisabeth Franck-Dumas e Gérard Lefort escreveram que Cocteau antecipou Duras, no sentido de que ela, ao se tornar cineasta, dizia não rodar um filme, mas o desastre de um filme ideal, nunca conseguido. Aliás, depois de Cannes, que exibiu a versão restaurada de Hiroshima, Meu Amor, o clássico de Alain Resnais (e Duras) reestreou nos cinemas e está sendo, como eles dizem, ‘un tabac’. Hiroshima está fazendo mais público agora do que fez em 54 anos, desde sua a estreia, em 1959, o que me faz lembrar que Emmanuelle Riva, apresentando o filme em Cannes Classics, disse que era um filme adiante de sua época, e era mesmo. Para não perder o fio da meada, volto ao cinquentenário póstumo, para assinalar aqui o que escreveram os analistas sobre Edith – hoje, ela é muito mais um fenômeno no exterior, nos EUA, graças ao filme com Marion Cotillard, que os norte-americanos amam, mas na França não há esse furor todo por ela (digo, Marion). Para misturar ainda mais as coisas, vou contar do susto que tomei no aeroporto de Paris ao ler, na capa de Le Monde, ‘L’adieu de Jean-Louis Trintignant’. Morreu o co-ator (e autor) de Amor,. de Michael Haneke, com Riva? Não, o adeus era ao palco. Aos 80 e tantos anos, Trintignant apresentou pela última vez, num  teatro do interior da França, seu espetáculo sobre poetas e poesia (Jacques Prévert é um deles). Que susto! Nem sabia que gostava tanto do velho. E fiquei sonhando – que pena que os festivais internacionais de teatro nunca trouxeram o espetáculo de Trintignant ao Brasil. Teria sido glorioso.

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