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Por amor a Gabo

Luiz Carlos Merten

17 de abril de 2014 | 17h23

Estava me preparando para sair da redação para ver Copa de Elite quando chegou a notícia  – morreu Gabriel García Márquez. Não foi nenhuma novidade, claro, mas se pode esperar pela morte de alguém e, mesmo assim, se emocionar quando ela ocorre. García Márquez morreu de câncer, aos 86 ou 87 anos (há controvérsia quanto à data). Conta a lenda que foi ao ler o trecho inicial de Metamorfose, de Franz Kafka, quando Gregor Samsa acorda transformado em barata, que Gabo, como era chamado, teve a revelação – ‘Mas então litetatura é isso? Posso criar coisas impossíveis?’ Foi assim que surgiu o realismo fantástico, que alguns também chamam de mágico, do qual ele foi um dos expoentes – não, não foi bem assim, mas por que não? Uma outra possibilidade foi aquilo que disse no domingo Carlos Nader, depois de vencer o É Tudo Verdade com Homem Comum. Tudo é verdade, tudo é ficção, e Gabo também poderia dizer que não inventava nada porque a realidade é múltipla. Quem conta acrescenta um ponto. O que já é é insólito, inusitado, fica mágico. Quem lê a extensa produção de Gabo não tem ideia do que foi a revolução que ele provocou nos anos 1960. Depois vieram a consagração e o Prêmio Nobel, mas era algo novo e inspirador ler García Márquez no momento de sua descoberta. Cem Anos de Solidão, que li na primeira edição argentina, comprada em Buienos Aires, saiu numa tiragem de menos de 10 mil exemplares e hjoje já vendeu 30 milhões de livros no mundo todo. Havia, naquele momento, uma vontade de (re)interpretar a América Latina e o mundo, as relações entre colonizados e colonizadores. Glauber buscava a descontinuidade, a ruptura, Gabo sonhava. Mitificava a força e virilidade dos Buendía, Aureliano que podia carregar uma bandeja no sexo poderoso, Ursula que tapava a boca para não gritar quando ele se introduzia dentro dela. Mais do que exótico, folclórico, aquilo era uma reafirmação de identidade e força, e de quem – os nativos da America Nuestra – sempre foi considerado ‘inferior’. As páginas finais de Cem Anos de Solidão são gloriosas. O último parágrafo é um jorro que Aureliano vai escrevendo e as páginas, carregadas pelo vento, coincidem com a destruição do universo imaginário descrito pelo autor. Sempre imaginei aquilo como o rompimento de uma represa e devaneei como grandes diretores teriam tratado aquela implosão. Na época, em plena eclosão do Cinema Novo, autores como Glauber estavam discutindo a latinidade e reformulando a própria narração. Tudo se fundia no imaginário da gente. Macondo, Jean-Luc Godard, Stanley Kubrick, Glauber Rocha. O mundo e a arte eram postos de pernas para o ar e a gente seguia a onda revolucionária. Havia um desejo de mudança, de transformar o mundo – pela política, pelo cinema, pela música, pela literatura. Gabriel García Márquez foi muito adaptado pelo cinema, mas nunca houve um filme à altura de seu gênio. Muitos vão citar a proximidade de Ruy Guerra, que foi seu amigo e fez Erêndira, La Bela Palomera, Veneno na Madrugada. Nenhum desses filmes me parece particularmente bom, o primeiro, talvez. Ruy tende a ser um realista nada mágico e os filmes se ressentem disso. Falta-lhe o fino humor, a ironia que era uma marca do escritor. Francesco Rosi também se perdeu em Crônica da Morte Anunciada e eu confesso que gosto somente de Ninguém Escreve ao Coronel, de Arturo Ripstein, que vi em Cannes. Tenho uma relação ambivalente com O Amor nos Tempos do Cólera. O filme dirigido por Mike Newell é falado em inglês, uma superprodução globalizada, e isso parece uma traição a Gabo, à riqueza de sua escrita e ao compromisso com a identidade latina que marca sua obra. Mas é, permitam-me dizer, o melhor roteiro – Ruy Guerra muitas vezes tentou transcriar, Ronald Harwood, que escreveu O Pianista para Roman Polasnski, fez um extraordinário trabalho de redução da história, que se estende por 50 anos. Aquilo, filmado em espanho, seria uma obra-prima. Harwood condensa a trama, trabalha o tempo e o espaço, utiliza o verbo marqueziano, respeita o humor e, acima de tudo, o tal elemento mágico. E ele contou com o aporte de outro valioso colaborador de Mike Newell – o diretor de arte Wolf Kroeger. O curioso é que García Márquez admitiu certa vez, ter sido influenciado por O Tempo e no Vento, a obra monumental de Erico Verissimo, mas quando Erico escreveu Incidente em Antares muita gente disse que ele estava tentando pegar carona no realismo fantástico que estava garantimdo projeção à literatura da América Latina em todo o mundo. O Amor nos Tempos do Cólera é o filme mais fácil do mundo para se odiar. Eu, sem exagerar no amor, o respeito. Encontro mais García Márquez ali dentro do que em adaptações tidas como fieis. E nunca tive a menor dúvida de que Javier Bardem sobrevive ao inglês macarrônico graças à sua força telúrica. Lembro-me de Fernanda Montenegro, que está no filme, me dizendo que Javier parecia um touro de Picasso. E não é?

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