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Diatribes do jovem Godard

Luiz Carlos Merten

08 de março de 2014 | 11h47

Embarco amanhã para o Rio, para a junket de Alemão, e de lá sigo para Los Angeles, para outra junket, a de Capitão América 2. Volto no fim de semana que vem e emendo com mais duas junkets no Rio – a de Rio 2 e a de Noé, que vai trazer Russell Crowe ao Brasil. Tenho uma relação meio conflituosa com Darren Aronofsky. Não é um diretor que, via de regra, me interesse muito. Gostei de Cisne Negro, mais até pelas atrizes (Natalie Portman e Mira Kunis), mas na revisão meu entusiasmo diminuiu muito. O restante da obra dele não me convence nem um pouco (Réquiem para Um Sonho, A Fonte, O Lutador). John Huston havia transformado o episódio do dilúvio numa espécie de intermezzo em sua Bibília. Ele próprio fez um Noé picaresco, bem diferente do que Russell Crowe cria, a se julgar pelo trailer, para Aronofsky. O Noé de Crowe está mais para o Abraão de George C, Scott também de A Biblia, no Princípio, de Huston… Vai ser bom? Fui fazer uma pesquisa porque sempre esqueço o título de The Wrestler – deve ser minha aversão ao personagem de Mickey Rourke – e descobri que Noé foi proibido no Catar, em Bahrein e nos Emirados Árabes e que a Paramount espera que também seja proibido no Egito, na Jordânia e no Kuwait. Não resisti a postar isso, mas, ainda sob o efeito do que me disse o Elvis – vejam post anterior -, estava pensando como é confortável poder me refugiar, de vez em quando, no conforto dos clássicos. Nunca me furto a tomar partido, mas estou agora na redação do Estado, onde fiz algumas entrevistas internacionais e aproveitei para iniciar um texto grande sobre Kenji Mizoguchi. Tão bom revisitar os clássicos, lembrar que anos antesz de Orson Welles e (e Greg Tolland) Mizoguchi já vinha praticando sua estética do plano-sequência. Sabendo que ia escrever esse texto e que Jean-Luc Godard ama o mestre japonês, resolvi fazer numa pesquisa rápida no livro Godard, les Années Cahiers, da Flammarion, que comprei em Paris, na volta da Berlinale. Esperava encontrar algum texto sobre Mizoguchi que tivesse me passado despercebido, mas Godard só escreve sobre Nicholas Ray, Frank Tashlin, Paul Wendkos e um tal de Charbonneau, diretor francês de linha que os dicionários de Jean Tulard e Rubens Ewald Filho nem se dignam a listar (e ele idolatra). Quanto pior o filme de Ray – Sangue Ardente, com Jane Russell e Cornel Wilde -, mais Godard o elogia, vendo sempre no autor o triunfo do ‘puro’ cinema. E ele amava, o que me surpreendeu, o Roger Vadim da primeira hora. Põe nas nuvens …E Deus Criou a Mulher, com Brigitte Bardot, e Aconteceu em Veneza, com Françoise Arnoul. Em compensação, cai matando em Faibles Femmes, O Ponto Fraco das Mulheres, de Michel Boisrond, comédia que estourou na bilheteria em 1958, o ano da eclosão da nouvelle vague. Achei muito engraçado que ele tenha descartado o elenco como ‘quatro zumbis’ (Alain Delon, Mylène Démongeot, Pascale Petit e Jacqueline Sassard). Seus maiores elogios vão sempre para Jean-Paul Belmondo e Brigitte Bardot, que dirigiu mais tarde, e ele alardeia tudo o que François Truffaut gostaria de fazer. Romperam, mais tarde, mas essa é outra história. Pegando carona em Honra de Ladrão, que Wendkos adaptou de David Goodis, com roteiro do escritor, anuncia que Truffaut vai fazer Atirem sobre o Pianista e garante – vai ser o ‘800 golpes’, em comparação com Les 400 Coups/Os Incompreendidos. Não duvido que Godard estivesse sendo honesto, mas lidos hoje seus textos parecem possuir, como se diz, uma ‘agenda’. São programáticos da nouvelle vague, da qual ele foi um dos arautos – e Godard tem a cara de pau de mandar recados a produtores, que deviam produzir tais e quais autores e atores, os primeiros, em geral, amigos, e os segundos que ele colocaria, a seguir, nos próprios filmes.

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