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Meu panteão, cada vez melhor

Luiz Carlos Merten

05 Janeiro 2014 | 11h53

Tenho revisto os filmes da minha lista de melhores do ano. Do meu panteão de cinco, só não revi o Blancanieves, de Pablo Berger. O tempo e o vento são os grandes personagens de Um Estranho no Lago – o vento que sublinha a estranheza do filme de Alain Guiraudie e o tempo marcado pela repetição do plano daquele carro chegando à praia. Gravidade me pareceu ainda melhor do que nas vezes anteriores (assim, no plural). Perguntava-me ‘Como ele (Alfonso Cuarón) fez isso?”, mas não queria saber, vidrado pela densidade dos personagens. São Silvestre… Meu Deus! Entre a Primeira de Mahler e o Poema do Êxtase de Scriabin, filmando a cidade e a corrida, Lina Chamie fez o filme mais belo que já vi sobre São Paulo, um filme em que nada é tudo. É de chorar. E ontem, finalmente, revi Azul É a Cor Mais Quente. Abdellatif Kechiche! Sei muito bem por que a cena final me perturba, o desencontro de Adèle com o ator, na exposição de sua ex, Emma. Mas fiquei pasmo, muito mais do que quando vi o filme em Cannes, pela justeza das observações sobre o abismo social entre as personagens de Adèle Exachorpoulos e Léa Seydoux.  Conversei muito com Kechiche sobre o significado de ele ter Léa no papel da ‘artista’. Léa é do poderoso clã Seydoux, que comanda o cinema francês por meio da Gaumont. É muito interessante como, no fundo, ela se exaspera com a falta de cultura de Adèle, que não é alguém de seu nível, como percebemos na refeição em família (nas casas das duas) e no encontro com seus amigos. Emma já está rompendo com Adèle antes mesmo de achar o motivo. É um filme longo, lento e desequilibrado, mas não creio que fosse possível tirar um minuto dele sem descaracterizá-lo. E o desequilíbrio, na arte como na vida, faz parte do processo. Dei à minha matéria sobre os melhores de 2013 o título ‘O ano do voyeur’. E foi. Mas o tempo foi o grande tema unindo todos esses filmes. E me perdoem o que pode parecer uma viadagem. Adèle e Léa, nuas e enlaçadas, são belas (e, às vezes, parecem o ying e o yang). Mas as colegas de aula, como as ‘sapas’, com raras exceções – a garota que beija Adèle -, são feias. Já os três caras que cortejam Adèle – o garoto na escola, o colega professor e o ator – foram escolhidos a dedo. Havia falado para Kechiche do voyeurismo dele, da sua fascinação pelo corpo feminino. Quando ele defendeu sua história de amor, independentemente de sexo, disse-lhe que ele só se interessou por Adèle e Emma porque eram mulheres. Disse que ele não teria filmado gays masculinos do mesmo jeito. Ele me retrucou que quer fazer La Vie d’Adèle 3 e 4 porque vai ter cenas de sexo com homens. Disse que duvidava. Ele apostou comigo. Ontem, revendo o filme, comecei a achar que isso é possível. Duas questões – Kechiche fundou uma produtora para fazer o filme no tempo que queria (uma semana só na cena do piquenique entre as garotas, quando Adèle, sempre com aquela boca aberta, baba pelo sovaco de Emma) e também para produzir filmes de novos talentos, como sua protegida Hafsia Harzi, de O Segredo do Grão, que vai estrear como produtora. E outra – antes de Volumes 3 e 4, seu próximo filme vai ser um documentário sobre a estrela pornô Marilyn Chambers, que fez história como a primeira a fazer sexo com um negro diante da câmera. Taí outra coisa que promete ser bem interessante.