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08/08

Luiz Carlos Merten

09 de agosto de 2012 | 10h54

Este é um post que gostaria de ter feito ontem, mas não deu. Várias vezes ao dia, preenchendo requisições para carros do jornal ou assinando cheques, escrevi a data – 08 de 08. Oito de agosto! Agora me lembrei. Tive uma namorada que aniversariava dia 5. No domingo, completaram-se 50 anos da morte de Marilyn e até me esqueci da outra data, não que seja coisa de que me lembre sempre, mas, enfim… Agosto é mês de muitos aniversários. Dia 21, será meu irmão, o Ildo. Dia 8, ontem, meu amigo Tuio Becker estaria de aniversário. Nunca sei como se diz isso em paulistês. Está de aniversário, faz aniversário? Tuio era um pouco mais velho que eu (dois anos?). Se eu faço 67 anos no mês que vem, ele estaria fazendo quantos? 69? 70? Conheci Luiz Fernando Becker, o Tuio, na Faculdade de Arquitetura da UFRGS. Ele era de Santa Cruz, cidade que foi um dos centros (o centro?) da colonização alemã no Rio Grande, coincidentemente, a terra de meu pai (e sede da Faculdade de Arquitetura na qual minha ex, Doris Bittencourt, mãe da Lúcia, hoje leciona). Tuio sempre me divertiu com suas histórias de Santa Cruz. Nos anos 1960 e 70, viajávamos muito pela América Latina, nunca juntos. Ele ia com o companheiro dele, eu ia com a Doris, mas o cinema e a música latinoamericanas formaram nosso imaginário. Minto – para algumas pequenas viagens de Porto a Montevidéu, para ver filmes, fomos juntos, sim. Tuio me apresentou Gabriel García Márquez e Augusto Roa Bastos, ‘Yo el Supremo’. Acho até que foi ele quem me deu o livro de Ricardo Guiraldes ‘Dom Segundo Sombra’, que Manuel Antín filmou. Tuio contava histórias de sexo de Santa Cruz, quem comia quem, gente que eu nem conhecia, num estilo de ‘realismo fantástico’ que me divertia muito. Santa Cruz, nas narrativas dele, era uma Sodoma e Gomorra. E ele havia visto mais Bergman que eu. Embora Santa Cruz não fosse uma capital – mas já era uma cidade ‘europeia’, enriquecida pelo fumo (a Santa Cruz era baseada lá –, havia não sei que esquema (alguém conhecido era dono do cinema, ou o quê) e ele podia entrar em filmes proibidos para menores, como eram, em geral, os filmes franceses e os de Bergman. Tuio amava westerns e melodramas de Hollywood, sabia tudo sobre a produção independente dos EUA (quando ela era alternativa de verdade), havia visto as rumbas de Maria Antonieta Pons e vivia de quatro pelas ‘divas’ mexicanas – Maria Felix, Maria Felix, Maria Felix, ‘la diosa arrodillada’. Cada um seguiu seu caminho, vim para São Paulo, quando nos reencontrávamos nunca era a mesma coisa. Algo se perdera, havia ficado naquele velho prédio da Arquitetura, e era natural que as coisas fossem assim. Nunca visitei o Tuio na sua fase de Alzheimer, o próprio Vanderlei me dizia que não adiantava, que ele não me reconheceria. Mas eu acho, admito, que foi algum tipo de covardia minha. Lembro-me dele mordaz, ferino, como sempre foi. Além de crítico, foi ator e diretor. Tuio foi o menino mau na versão de ‘O Negrinho do Pastoreio’, de Antônio Augusto Fagundes, baseado na narrativa gaúcha recolhida por Simões Lopes Neto em seus ‘Contos Gauchescos e Lendas do Sul’. Fez filmes, muitos em super-8, sobre sua herança alemã, mas um era uma ilustração de ditos chulos, que ele fez como reação aos contos morais e às comédias e provérbios de Eric Rohmer. ‘Armar a barraca’, em qualquer lugar do mundo, é metáfora de ereção. Na versão de Tuio, a calça do sujeito infla, mas o que salta de dentro é um guarda-chuvinho colorido, daqueles de frevo, que se abre automaticamente. Minha melhor história com o Tuio é que uma vez ele estava doente, fui visitá-lo na pensão em que morava (na rua Miguel Torres?). Não havia nada para beber, tomamos uma garrafa de Biotônico Fontoura, que tinha certo teor de álcool. Aquele porre de biotônico foi uma das piores coisas de que lembro. Volta e meia me lembro de Tuio, como de outros amigos que se foram – Sérgio Moita, Romeu Grimaldi. Amigos de quem gostava e que me fazem falta. Penso sobre o que Tuio acharia de certos filmes, e me emociono.