O Jogo atrás dos Jogos Parte 2

Leandro Karnal

15 Agosto 2016 | 18h29

As Olimpíadas assumiram muitas feições no mundo contemporâneo. Os jogos foram tornados exaltação do Estado Totalitário (1936); não foram realizados em função da guerra (por exemplo, 1940 e 1944) ; começaram a ser palco da Guerra Fria (1952); foram atingidos por conflitos no Oriente Médio (1972) e serviram a boicotes geopolíticos entre EUA e URSS: 1980 e 1984.
O evento tornou-se global, e uma medalha é comemorada como um feito nacional. As aberturas também passaram a significar a metáfora da eficácia estatal (como em Pequim, 2008). Os portadores do galardão olímpico viram deuses. Nomes como o de Nadia Comăneci , Usain Bolt e Michael Phelps ficam gravados na memória eterna das realizações físicas humanas. Hoje, uma Olimpíada é, provavelmente, o maior evento mundial.
A imprensa adota a competição como foco nesta época. Dessa forma, mesmo quem não gosta muito, é bombardeado de maneira intensa por informações. As manchetes ficam monotemáticas.
Lanço um olhar crítico que não é o do estereótipo do intelectual que, com óculos de aros redondos e afogado em estudos de aramaico, deplora os que se dedicam ao esporte. Não se trata disso.
Volto ao ideal grego. O objetivo de toda atividade física era uma eudaimonia, um equilíbrio importante e propiciador da integração social e pessoal. Os atletas mostravam o quanto o ser humano poderia atingir. Parte disso existe no esforço gigantesco de abnegados atletas contemporâneos. Porém, há problemas.
O primeiro obstáculo é que o grau atual de exigência expõe o corpo humano a um desgaste imenso. As carreiras são curtas, porque a excelência demandada acarreta uma ação destrutiva. A busca da perfeição física é levada ao ponto de minar a saúde. O esporte, que deveria indicar o caminho para a melhoria da compleição física, torna-se destruidor do corpo! Por vezes, para os resultados almejados, substâncias nocivas são utilizadas, e o dano se torna ainda maior.
O ideal do esporte amador entra em outro jogo: os patrocínios e a propaganda das marcas. Para vender milhões a atletas amadores e de baixa performance como eu, os altamente qualificados devem aceitar contratos e exibi-los. O corpo do atleta vai virando um outdoor. De sujeito, ele se transforma em objeto.
No caso do Brasil, tal como ocorreu na Copa, as obras transfiguram-se em foco de corrupção. O chamado “legado olímpico” tem tantos problemas que poderia ser denominado de maldição. Trata-se de uma caríssima maldição.
O show começou. O público valoriza e dá audiência. Os ingressos se esgotam rápido. Um rio lucrativo flui sob o assoalho olímpico. O que está sendo celebrado ali? A pátria? O herói? O corpo? O dinheiro? Um pouco de tudo?
Vale a pena? A resposta tem sido um claro sim para muitos. Países disputam a indicação. Cidades celebram quando são escolhidas. Milhões aprovam e se entusiasmam com o evento. Queria lançar essa dúvida: todo nacionalismo, todo desgaste de corpos e todos os gastos seriam bons motivos? Pelo menos ,resta esta voz solitária dizendo… talvez não valha a pena. Seria possível reorganizar tudo, buscando saúde em vez de performances desgastantes? Que eu possa separar saúde de esporte é um dos pontos mais inquietantes do nosso mundo.
Questão final: haveria o esporte moderado, amador e pífio de gente como eu ,se não houvesse os exemplos espetaculares dos medalhistas olímpicos? As pessoas que deixam uma vida medíocre e lutam por marcas melhores não legitimariam essa entrega? O lado bom do esporte (superação, melhoria, ascensão…) não justificaria tudo? O jogo de interesses econômicos não estaria também presente no Prêmio Nobel ou em todas as causas boas que abraçamos? Provavelmente sim. Olho hoje para estes atletas como mártires da sua força de vontade, da sua vaidade, do seu mérito, do seu treino obsessivo e das suas metas. A fé dos mártires sempre foi maior do que a fé comum. Por isso eles brilham em altares e pódios, e nós rastejamos no lodo. Atletas olímpicos seriam as vítimas finais da admiração que temos por tudo que nunca conseguiremos ser? O mundo é um lugar complexo. Por alguns instantes, aqueles jovens brilharam alto e uniram seus compatriotas em uma explosão de orgulho e felicidade. Ter articulações desgastadas parece um preço pequeno para tanta recompensa. Eles são foguetes que ficam deixando pedaços para atingir a Lua. Muitos chegam lá. Outros, como eu, ficam na Terra dizendo que é um esforço excessivo. Nossa prudência será nosso esquecimento. A ousadia dos atletas será sua glória. Citius, altius, fortius!