Um piano na sala, e a vida se transforma
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Um piano na sala, e a vida se transforma

Júlio Maria

06 de setembro de 2017 | 17h03

As duas decisões mais importantes do ano que precisei tomar até esse setembro de 2017 parecem conflitantes: 1: Comprar um piano. 2: Tirar minha filha das aulas de piano. O piano que comprei é simpático, algo com o charme dos acústicos e a praticidade dos elétricos. Depois de testá-lo em vários cantos da sala, resolvi colocá-lo em uma posição que deixa quem toca de frente para as tardes de sol argentino da Pompeia. No dia em que consegui encadear três acordes de ‘Rocket Man’, de Elton John, assistindo a uma vídeo aula no YouTube, conheci a sensação mais próxima da levitação. Dez dias de prática dos mesmos três acordes depois, e algumas pragas rogadas da vizinhança, encaixei a voz naquele trecho e a levitação se tornou um sobrevoo. Nunca havia sentido nada parecido.

Assim que Reginaldo chegou ao quarto andar – o batismo do piano é uma homenagem a Sir Elton John, que na verdade se chama Reginald Kenneth Dwight – ninguém em minha pequena família sabia tocar. Helena, 9 anos, fazia aulas um tanto enfastiada, sem nenhum sinal de que teríamos ali um novo Mozart, e seu irmão, Dudu, não parecia seduzido por outra coisa que não fosse tirar ‘Hurt’, de Johnny Cash, ao violão. Esquecemos com o tempo, mas os 15 anos nos trazem isso. O preto se mistura ao branco e o mundo começa a ficar indecifravelmente cinza, longe das cores quentes que nascem por trás dos acordes de Elton John. Um frio começou a me tomar todas as vezes em que passava pela sala. Reginaldo já era um desafio, o silêncio que não poderia existir, a música que precisava ser extraída para não morrer naquele corpo de madeira maciça. O piano não poderia se tornar um caixão.

Aprender a tocar três acordes de piano aos 44 anos sem professor e com a memória de um besouro foi minha maior conquista em muitos anos. Cheguei ao fim da música em um mês e me encorajei a partir para outra, ‘Your Song’, com um prazer que me fez pensar que Reginaldo era mesmo um ser vivo, agoniado por uma alma que lhe tirasse a mordaça. Ao mesmo tempo, percebi Helena acanhada, sentindo-se culpada por não atender à expectativa do pai que havia levado um piano para a sala de casa sem negociar com ninguém. Depois que eu me divertia, ela se ajeitava no banquinho com o ânimo de quando se senta à mesa para fazer lição de matemática. A música, para Helena, se tornava um tormento, uma série de exercícios rítmicos que precisava praticar ouvindo o estalar de um metrônomo marcar o tempo do qual jamais poderia sair, um sequência de notas que precisava encontrar mediunicamente em um teclado de duas cores, sentindo-se derrotada a cada vacilo, chicoteada por cada erro.

A voz de Hermeto Pascoal surgiu enquanto Helena começava a chorar diante de Reginaldo: “Eu senti antes de aprender, e fui aprender apenas para entender o que eu sentia.” Era isso. Coloquei Helena no colo e disse que, a partir daquele momento, o piano seria o nosso brinquedo. Com o gravador do celular ligado, ela começou a brincar de compor, tocando a tecla em que suas mãos caíssem primeiro, sem saber se chocaria intervalos de segunda menor proibidos pelos cursos de improvisação ou misturaria compassos binários a ternários que fariam inveja a Dave Brubeck. Helena começou a criar frases pequeninas com repetições de células rítmicas que davam sentido mesmo quando o som não era a resolução que meus ouvidos esperavam. Ela sorria no final, ansiosa para dar um nome a cada criação antes de enviá-la para a mãe pelo WhatsApp. A primeira se chamou ‘Pianos e Pianos’. A segunda, ‘A Casa do Pai’.

A imagem de Helena se divertindo com Reginaldo me faz pensar, todos os dias, no que foi feito do pensamento criativo através dos anos. Ao organizá-lo com regras, eliminamos qualquer possibilidade de que ele seja livre e, portanto, criativo. Hermeto tem dito isso há anos, mas não percebemos porque sempre temos vontade de sorrir com tudo o que Hermeto diz. Grandes instituições de música formatam os improvisos de seus alunos com regras seculares. A harmonia está organizada em campos harmônicos inquestionáveis, os solos devem seguir escalas determinadas. “Isso não é improvisar, é repetir padrões”, vem Hermeto de novo. “Improvisar é criar na hora, é tomar susto e provocar susto.”

Elton John e qualquer músico pop que você mencionar aqui tem seu pensamento criativo formatado assim, dentro das regras proibitivas da música ocidental que, diga-se, funcionam que é uma beleza desde o século 18. Só penso que, com as crianças, bem que poderia ser diferente. Até que elas chegassem a esse estágio inevitável da domesticação do que deveria ser indomável, cursos e professores deveriam aproveitar o único momento da vida em que não temos filtros, padrões nem amarras e que não queremos ser outra coisa se não nós mesmos. Desde que Reginaldo chegou naquela casa, nunca pensei em usá-lo para criar meus Beethovens domésticos. Que sejam o que quiserem ser, mas sem medo de seguir seus instintos. Helena pode voltar um dia a ter aulas, mas só depois de brincar muito com Reginaldo.

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