‘Teach your Children’, a canção que disse tudo
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‘Teach your Children’, a canção que disse tudo

Júlio Maria

17 de dezembro de 2018 | 20h54

Uma canção de Grahan Nash absurdamente linda chega às vésperas dos 50 anos. Nós jornalistas funcionamos bem à base de efemérides, mas desta vez confesso que forcei um pouco a barra pelo simples fato de sentir uma vontade irrefreável de falar da força dessa música depois de tocá-la na sala de casa com meu pequeno repertório de acordes. Não importa. As grandes canções, para desespero dos fomentadores de um certo academicismo que relaciona o valor de uma obra com a quantidade de acordes ou de estranhezas que ela possui, foram feitas com dois, três, quatro acordes. “Pô meu irmão, vamos sair daqui”, arregalou os olhos Tim Maia a um amigo ao ver Carlos Lyra tocando pela primeira vez. “Em dois minutos esse cara já tocou mais acordes do que eu fiz a vida inteira.” Mas, aqui, o universo é outro. Teach Your Children, que me tem feito criar uma efeméride de “quase 50 anos” para justificar o post – foi lançada em 1970, no bestial Deja Vu, dos bestiais Crosby, Stills, Nash and Young. Além de beleza, a canção que entra para a história precisa ter história. E essa tem.

A formação clássica, com Crosby, Stills, Nash e Young

Grahan Nash, hoje com 76 anos, fez Teach your Children quando ainda estava nos Hollies, um dos maiores grupos ingleses dos anos 1960. Fez mas não gravou, o que só faria ao lado dos novos companheiros. David Crosby, um dos fundadores dos Byrds, conheceu Nash enquanto faziam juntos uma turnê em 1966, cada um com sua respectiva banda. Stephen Stills, um baita guitarrista, veio da Buffalo Springfield, e Neil Young, canadense que também havia passado pela Buffalo, andava como um trovador solitário quando foi convidado para integrar o super grupo. Quatro vozes de arrepiar se juntavam ali.

Nash conta que escreveu a música ao ser aterrorizado por uma foto de uma criança segurando uma granada de brinquedo no Central Park de Nova York. Algumas publicações contam que a canção já estava escrita quando ele se deparou com a foto e percebeu as semelhanças entre a letra e a proposta daquela imagem. O fato é que Nash, fotógrafo e colecionador de imagens, teve um impacto imediato com a fotografia tirada por Diane Arbus, batizada Criança com Granada de Mão de Brinquedo no Central Park. Os Estados Unidos começavam a bater em retirada do Vietnã naquele início de 1970, mas os efeitos da guerra trazidos pelos homens que retornavam para casa, e sobretudo pelos que não retornariam jamais ainda queimavam.

A foto de Diane Arbus de 1962, que inspirou a canção

A imagem da fotografia de Diane Arbus mostra um garoto desajustado segurando a granada de forma tensa, com os braços retorcidos e um olhar desafiador e um tanto maníaco. Impossível desviar o olhar nos primeiros segundos. O menino da foto de chama Colin Wood, filho do tenista Sidney Wood, que anos mais tarde falou sobre aquela imagem: “ É verdade, eu estava mesmo exasperado. Meus pais haviam se divorciado e havia um sentimento ali de solidão, uma sensação de estar abandonado. Eu estava apenas explodindo e a fotógrafa captou isso. Ela se sentiu danificada e esperava que, ao mergulhar naquele sentimento, através da fotografia, pudesse transcender a si mesma.”

Os anos se passaram. Dez, vinte, trinta, quarenta, quase cinquenta, e a canção de Nash ganha sentido mesmo para quem não sabe onde fica o Vietnã ou para quem nunca viu a imagem de Diane Arbus com o garoto segurando uma granada. Uma das partes mais tocantes diz assim: “E você, de tenra idade / pode não conhecer os medos / Com os quais os mais velhos cresceram / E por isso, ajude-os com a sua juventude / Eles buscam a verdade antes que venham a morrer.” A ideia de um filho ajudando um pai a encontrar seu caminho pode parecer a inversão maus absurda da natureza humana, mas confesso que não paro de ouvir essa música pensando no quanto tenho aprendido com uma pequena mulher de 9 anos e um homem de 17.

 

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