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Shorter e Hancock: uma viagem a lugar nenhum

Júlio Maria

31 Março 2016 | 19h47

Eu juro que tentava me conectar com todas as forças ao que Wayne Shorter e Herbie Hancock faziam na Sala São Paulo, na abertura do festival BrazilJazzFest. Sabia que era uma oportunidade rara, talvez última, a de ver os dois gigantes cheios de histórias com Miles Davis nos anos 60, de passos à frente do tempo nos anos 70 e donos de uma comunicação sensorial que, como me havia dito Shorter em entrevista recente para o Estado, permitia que eles fossem para o palco “de pijamas”, sem nenhum ensaio. Eu queria estar com eles, ser conduzido para o mundo que escolhessem, sentir na alma todo o vazio e toda a euforia que suas habilidades pudessem me proporcionar. Mas, então, algo terrível aconteceu.

Shorter e Hancock tocavam desde o início em uma redoma de vidro e sua música soava impenetrável. Eu procurava por sensações que nunca chegavam, investigava sombras de referências, puxava linhas dos fragmentos caóticos que jamais completavam um desenho. Aos poucos, fui sendo tomado pela sensação de derrota e humilhado pelo único recado que conseguia entender: eu era um incapaz, um iletrado, não merecia respirar o mesmo ar de dois homens que aprendi a chamar de gênios mas com os quais não conseguia estabelecer três míseros segundos de conexão emocional. Eu deveria ter estudado para estar ali? Ajustado minhas expectativas na frequência certa? O fato é que, então, algo ainda mais terrível aconteceu.


Os espinhos começaram a brotar da cadeira em que eu estava e a dor da agonia tomou minhas nádegas. A noite especial se convertia em tortura e eu contava os segundos para o fim, sobretudo quando Herbie Hancock se virara na banqueta de seu piano para acionar no sintetizador programações de ruídos que seriam usados como base para mais devaneios. Foi aí que os pensamentos oportunistas apareceram, aqueles que nunca sei se nos atacam ou nos protegem. O prazo de entrega do Imposto de Renda; os filhos que precisam tomar a vacina contra a gripe suína; a mãe de um amigo internada no hospital. Não era para ser assim. Wayne Shorter e Herbie Hancock estavam diante de mim. Mas, então, algo libertador aconteceu.
Eu não estava só, e percebi isso quando vi pessoas constrangidas jogando a toalha e deixando a Sala São Paulo em silêncio. Não a maioria, mas muitas delas, algo anormal para um concerto desta magnitude. Um homem cego armou sua bengala e saiu sozinho pelo meio da plateia. Em quinze minutos, uma debandada no balcão mezanino levou cinco casais. Os lugares vazios se tornavam mais visíveis em toda Sala São Paulo. Um homem gritou “Toca Raul!” como se fosse um desabafo, não uma graça. Um tempo depois, alguém que se retirava próximo ao palco esticou o dedo proibido em direção a Hancock. Havia um lamentável desconforto no ar.
Eu decidi ficar quando percebi que assistíamos a uma aula na qual os alunos não eram mais a plateia, mas Hancock e Shorter, justamente os dois homens que acabaram de assinar uma bem escrita “carta aos jovens músicos”, cheia de conselhos sobre os perigos dos egos e das necessidades das inspirações no mundo de hoje. Víamos ali uma espetacular lição sobre o que não fazer no palco e as consequências que não poupam nem os homens que se vestem de mitos. 1.) Música não é para ser entendida, mas sentida (Hermeto Pascoal). 2.) Quando a plateia se levanta para ir embora, algo muito sério aconteceu. E a culpa é sempre de quem está no palco (Wynton Marsalis). 3.) Chamar um público de ignorante é a melhor forma de camuflar a incapacidade que um artista teve de tocá-lo naquela noite.

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