Racistas assintomáticos
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Racistas assintomáticos

Júlio Maria

20 de novembro de 2020 | 10h09

Somos muitos racistas, e nem precisamos ser brancos para isso. Na verdade, brancos mesmo nunca somos, porque até as peles mais claras desses lados tropicais carregam uma terra nos pés e um ar nos pulmões que jamais nos farão exemplares puros de seja lá qual for o tipo de arianismo que almejamos pertencer. Somos todos racistas, mas não somos todos irrecuperáveis. E, talvez, seja esse o momento de separarmos, desculpem o preconceito, os racistas em classes não para entendê-los e acariciá-los, mas para entendermo-nos. E ainda para, antes de combatê-los, combatê-lo, o racismo, em nós. Talvez seja o momento de nós, “seres de bem”, duvidarmos de nós mesmos e investigarmos como e quando este vírus silencioso se manifesta e nos torna “seres do mal”.

Elizabeth Eckford, em 1957: um símbolo / Will Counts

E então, uma rápida classificação para chegarmos onde importa: os racistas extremistas são aqueles que acreditam que a cor de suas peles o tornaram, por força de unção cromática celestial, melhores do que negros, indígenas, nordestinos, hispânicos e todos os demais diferentes que estejam, segundo suas avaliações, em condições econômicas, físicas e culturais inferiores. Por terem a espontaneidade dos insanos, são esses os mais expostos e facilmente identificáveis. É o tipo do racista agressivo, militante e, não se engane, perfeitamente consciente do que faz. Por isso, não dê a ele o benefício da dúvida moral que se dá aos loucos. Se os loucos ouvirem, poderão processá-lo por calúnia, injúria e difamação.

Os racistas moderados, ou moitas, também são conscientes de suas práticas, mas agem de forma cautelosa. Eles sabem que não devem pensar tão alto e não expõem seu desprezo ao outro por saberem que podem perder do emprego à própria liberdade. Um moita só será ele mesmo em situações seguras e de contextos monocromáticos, como quando estiver com a família à mesa de jantar, com os amigos no café ou com ele mesmo, à cabine de uma urna eleitoral. Suas atitudes são silenciosas e estratégicas, mas tão ou mais destruidoras do que os desvarios extremistas. Contidos, ascenderão socialmente e ocuparão cargos de decisão em governos e empresas. E aí é sempre uma tragédia, porque um racista moita poderoso equivale a centenas de extremistas bravateadores.

Mas é a terceira categoria a mais populosa, disseminada e resistente a qualquer diagnóstico justamente pelo fato de ser ela a única de todas que não sabe que é racista. Os racistas assintomáticos não gostam de racismo, ficam indignados com as notícias que envolvem os racistas, lutam por direitos igualitários e jamais imaginam ser eles mesmos, um dia, acusados de racismo. Eles não são racistas em níveis conscientes, mas o são todos em algum grau nas camadas mais abaixo da razão. Sim, eles somos nós, sobretudo pessoas não negras e distribuídas em todas as colorações de branco que acreditam olhar para o outro como um igual. Não olhamos, e talvez seja o momento de assumirmos isso. Se não sabemos o que é sofrer racismo, sabemos, em algum nível, como é praticá-lo.

Assumir a condição histórica do opressor, ainda que não o sejamos em toda a sua atrocidade, é ganhar uma consciência libertadora que pode trazer uma das chaves mais importantes para a questão racial no país. Só o opressor consciente pode se dispor a estruturar o processo de formação mental racista com precisão e começar a interromper o ciclo da perpetuação do mal nas próximas gerações. “Sim filho, nós os oprimimos por anos e temos uma dívida com as pessoas negras. Precisamos dar um jeito de pagá-la.” Algum pai branco já disse isso a seu filho? Não, e por uma única razão: os racistas são sempre os outros.

Nunca poderemos sentir a dor de uma mãe que teme pela hora em que seu filho chegue em casa apenas pelo fato de ele ser negro e jamais saberemos o que é ser vigiado pelo segurança de um supermercado, orientado a flagrar um jovem condenado ao delito imaginário pela cor de sua pele, mas sabemos, ou podemos imaginar com um bom grau de precisão, o que é estar do outro lado. Não devíamos estar à parte nessa discussão, calados e distantes por não sermos negros. E quando formos chamados a ela, devemos parar de fingir que somos negros e assumirmos a condição do branco da bancada com humildade e confissão.

Como portadores de um vírus assintomático, vivemos dignamente com as diversidades até o dia em que fazemos o julgamento que nunca imaginaríamos fazer. O repórter olha o menino negro com um uniforme do Clube Pinheiros e pergunta se ele está indo “pegar as bolinhas” dos brancos que jogam tênis. Não, o menino é o jogador de polo aquático do clube. O segurança vê uma criança negra na praça de alimentação de um shopping e pergunta ao cliente se ele está sendo importunado. Não, a criança é a filha do cliente. Um cidadão pede ao homem negro parado à porta do restaurante para pegar seu carro. Não, o homem negro está ali porque também espera seu carro.

Eu entrei com uma senhora negra no elevador do prédio em que moro dias antes da pandemia. A única pessoa negra que havia visto ali até então foi minha mulher. Aliás, desde que chegou do Rio, minha mulher tem a ligeira impressão de ser a única pessoa negra que mora em toda a Pompeia e, talvez, em Perdizes também. Bem, estávamos no elevador apenas eu e a senhora negra. Subimos, falamos algo sobre a demora dos elevadores e, quando meu andar chegou, abri a porta e me despedi. “Boa tarde, senhora, bom trabalho.” “Bom trabalho!”, eu disse. Mas por que bom trabalho? Ela não poderia ser uma moradora? Qual informação me levou a entender que a senhora trabalhava no prédio? Qual informação eu tive para imaginar que a senhora não era uma moradora? E como ela se sentiu? Alguém incapaz de morar em um prédio da Pompeia?

Fico um pouco preocupado quando ouço o nome disso: racismo estrutural. Sei que ele existe e é avassalador, mas me parece também algo que alguns passam a usar para, mais uma vez, colocarem a culpa no lado de fora. E o problema é que, ao fazermos isso, dizemos também que não podemos fazer nada, que o mundo é assim por causa de nossas heranças escravocratas e que estamos fadados às divisões raciais de uma estrutura viciada. As estruturas racistas são tão poderosas que nos contaminam ainda na infância e nos tornam, à revelia da própria moral, da ética e dos valores que podemos carregar, racistas estruturais. O lugar de escuta do branco é pouco. Depois de ouvir ele deve falar para se desconstruir, se curar e começar a pagar sua dívida.

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