‘Quem matou Elis Regina?’
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‘Quem matou Elis Regina?’

Júlio Maria

11 de fevereiro de 2016 | 12h02

A pergunta que mais ouvi enquanto apurava a história de Elis Regina, e mesmo depois de lançá-la no livro ‘Nada Será Como Antes’, em março de 2015, foi “mas afinal, você descobriu quem levou as drogas para ela?” E então, da mesma pessoa que me questionava seguiam-se nomes e teses das mais difusas. Algumas fantásticas, outras menos. A causa da morte de Elis, para muitos, segue sendo inadmissível, uma barbeiragem histórica, uma crueldade bíblica. Aos 36 anos, a mulher que redimensionou a experiência artística do palco e dos discos atingindo um inédito ‘efeito assombro’, não visto nem antes nem depois com a mesma intensidade, saía de cena em uma manhã de janeiro de 1982 de forma patética. A mistura de cocaína com bebida alcoólica nem precisou de porções exageradas para que seu organismo entrasse em colapso.

A procura por vilões é a reação natural nas grandes revoltas. É preciso lavar as almas caçando e crucificando suspeitos. E então o biógrafo, depois de visitar o passado por anos batendo à porta de memórias ditas e escritas, frustra a expectativa dos justiceiros ao entregar-lhes a bandeja vazia. Quem levou as drogas a Elis é uma pergunta sem resposta talvez porque Elis não precisasse de ‘aviãozinho’ nem de professor. Não consigo conceber a imagem desta mulher sendo convencida a rastejar o nariz sobre uma carreira de pó se não quisesse fazê-lo. Elis vivia imersa em um universo em que chovia cocaína. Com poucas exceções, todos consumiam. Ela só precisou estender a mão.

elisblogElis sucumbiu apenas no final da vida. Cansou de dizer não, de negar os “superpoderes” de laboratório, de ser “a polícia dos amigos”, como dizia de si mesma quando pedia que sumissem com “aquelas porcarias”. Não gostava nem do cheiro de incenso. Um dia, sua imunidade baixou no que interpreto como resposta a um crítico momento de angústia, a uma solidão corrosiva, invisível e silenciosa. Ela tinha um bom homem a seu lado, Samuel McDowell, mas não mais o seu homem, Cesar Camargo Mariano. E estava exausta de transbordar, de viver desde os 14 anos abrigando em si uma alma grande demais para uma pessoa só. A cocaína acabava com sua insegurança e a fazia voar. O problema era o penhasco que vinha logo em seguida.

Se acharem quem levou as drogas a Elis, vamos precisar reabrir os inquéritos. Quem matou Chet Baker? Quem apresentou a heroína a John Coltrane? Quem colocou Amy Winehouse no crack? Quem acabou com Billie Holiday, Miles Davis, Jim Morrison, Jimi Hendrix, Janis Joplin? Quem matou Tim Maia? O caso Amy Winehouse levanta uma questão mais profunda e refaz a pergunta: “Quem deixou essa garota morrer?” Sua história, ou uma delas, registrada em ‘Amy’, que pode ganhar um Oscar de melhor documentário este ano, aponta para dois carrascos em potencial: Blake Fielder-Civil, seu marido, e Mitch Winehouse, seu pai. O primeiro aparece como um junkie irrecuperável. O segundo, como um sem noção, que teve ao menos uma vez a chance de dizer “filha, você precisa de tratamento”, mas preferiu não magoá-la ou mantê-la na estrada com um “imagina filha, você está muito bem”.

Entrevistei algumas dezenas de pessoas que viram Elis Regina descendo a ladeira sem freio. Alguns consumiram drogas com ela, outros apenas a viram no palco do show Trem Azul com a certeza de que estavam diante de uma tragédia espetacular. Ninguém se atreveu a escrever-lhe uma carta no dia seguinte. “É cocaína”, disse Caetano a Gil. “Não era mais Elis”, percebeu Roberto Menescal. Não pude estar em uma plateia de Elis, mas vi Amy em estado crítico tentando cantar no show que fez em 2011, em São Paulo. Enquanto procurava o microfone com as pernas trançadas, claramente sob efeitos químicos, Amy era ignorada pelos músicos e pelos cantores que a acompanhavam dançando freneticamente às suas costas. Suspeitei que deveriam até se divertir com piadas internas. Alguém deveria dizer que o show tinha que terminar, mas a máquina não permitiria.

Quando Amy morreu, lembrei daquele show e deixei que uma sensação de culpa recaísse sobre mim. Eu vi e também não fiz nada, como se nós, plateia, até gostássemos de tudo aquilo. Como se as drogas descessem sobre os mitos o manto sagrado da transcendência, glorificando suas existências e preparando seus funerais. Como se o delírio e a angústia de um viciado engrandecessem o espetáculo. Como se o brilho do pó legitimasse o ingresso ao planeta dos imortais. Assistimos assim suas mortes prazerosamente. Ao final do espetáculo, aplaudimos e os enterramos jovens sem imaginarmos que vivos eles valiam muito mais.

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