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Os meninos da Rua Antonio João

Júlio Maria

15 de novembro de 2017 | 17h27

Eu me lembro bem do dia em que as pessoas começaram a ganhar cor. Era uma tarde sem ventos de 1984, eu em meus onze anos, quando a bola Dentinho que jogávamos no campo pintado no asfalto da Rua Antonio João, nos altos do Sítio do Morro, na zona norte de São Paulo, saiu dos pés de Blu Blu, passou pela zaga de Tonhão, desviou em Beto Zoio, chamuscou minhas mãos, rebateu no poste e voou em direção ao único lugar em que rezávamos para que ela não pousasse: a casa de Dona Geralda. Por surpresa, Geralda parecia mais calma, talvez sonolenta, e desta vez não trazia a faca de cozinha com a qual descarnava nossas bolas voadoras com algum prazer. “A senhora pode pegar pra gente?”, pediu Blu Blu, trêmulo. Geralda ajeitou os cabelos, agachou-se e pegou a bola com delicadeza diante do nosso silêncio fúnebre. Subiu as escadas, abriu o portão e a entregou nas mãos de Blu Blu. Quando ele já virava as costas, Geralda voltou a ser Geralda, desfazendo-se de Madre Teresa com uma frase de raiva sem volume que se tornaria o maior enigma até aqueles meus onze anos de idade: “Seu moleque…”, disse, olhando Blu Blu. “Tinha que ser preto.”

BB King apontou que a conta do preconceito não fechava / Foto de Valeria Gonçalvez

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Fingimos que não ouvimos, ou não entendemos mesmo o que ouvimos, e voltamos a jogar. Não sei se foi só comigo, mas confesso que, naquele instante, meus amigos começaram a ganhar cores que eu jamais havia percebido que existissem antes da sentença de Geralda. Xaxá, nosso melhor atacante, era moreno claro, quase branco. Tonhão, alto e magro, era negro, mas um negro menos preto do que Blu Blu, que era preto quase azul. Tal, gordinho que morava na igreja evangélica da rua de baixo, era um tipo indiano, caboclo, que deveria estar na classificação dos negros, já que sua pele combinava em tom com a de Blu Blu. Beto Zoio me parecia marrom escuro, da cor de Tonhão, mas de olhos verdes. Carlinhos era branco, o mais branco de todos, mas nenhum traço de seu rosto o colocava como representante de alguma espécie ariana. Olhei para mim mesmo e vi que estava em uma paleta mais próxima do preto. Não sabia exatamente o que Geralda queria dizer com aquela frase, mas percebi que a intenção era condenar todos nós a alguma maldição.

“Coisa de preto”. A frase voltou a soar com algum mistério alguns anos depois, em 1989, quando ouvi o primeiro blues que me fez querer ser alguma coisa pela primeira vez. ‘Before You Accuse-me’ era “coisa de preto”, Bo Didley, gravada por um branco, Eric Clapton. Bo Didley me levou a Muddy Waters, que falou de Howlin’ Wolf, que indicou BB King, que trouxe Buddy Guy, que apontou Albert Collins e que mencionou Little Water. Se a razão da existência dos meus 16 anos dependia de heróis negros, algo não batia com o tom de Dona Geralda. Juro que, em minha confusão mental, comecei a pensar que havia entendido tudo errado. Geralda era uma amante dos negros, e devia ver naquele chute desconcertado de Blu Blu traços de um novo Rei Pelé. Seu “coisa de preto” só poderia ser um elogio.

“Coisa de preto” voltou então 33 anos depois de Dona Geralda. Desta vez por um jornalista, William Waack, insistindo em fazer piada com um comentarista durante a cobertura das eleições americanas, e agora eu não tenho mais a ingenuidade dos onze anos nem a paixão dos 16 para me protegerem. O “coisa de preto” dito por um jornalista em tom jocoso no ambiente do telejornal mais assistido do País é muito mais do que o flagrante de um caso isolado de preconceito. Ele é um pensamento. A exclusão racial que se encontra nas camadas mais profundas do escárnio à ideia do “coisa de preto” deforma o próprio jornalismo. A redação dos iguais passa a olhar para os mesmos lados, a ter as mesmas percepções, a frequentar os mesmos ambientes, a eleger as mesmas promessas, a valorizar as mesmas atrações. Não pisa na periferia, não sabe das rodas de samba de São Mateus, ignora os rappers sem assessorias de imprensa e tem horror a concentrações populares como a Virada Cultural, mas dá a alma para estar em um Rock in Rio e trabalha sem folgas por um Lollapalooza. E está tudo certo tê-los também, desde que os outros universos fizessem parte do jogo.

Sempre entendi a redação de um jornal como o ambiente profissional mais dependente das diferenças. Uma equipe de jornalistas formada por idades, cores, gêneros, religiões, idolatrias e origens antagônicas resultaria na melhor publicação do mundo, com um raio de atuação inacreditavelmente abrangente e de sensibilidades a notícias que muitas vezes não conseguimos ver por sermos todos muito iguais.

*Geralda não é o nome real de nossa trituradora de bolas
*Blu Blu nos deixou dois anos depois, vítima de leucemia

 

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