O não de Michel Temer a Elis Regina
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O não de Michel Temer a Elis Regina

Júlio Maria

19 Junho 2018 | 17h51

Elis Regina andava triste por ter de entrar em um embate jurídico contra dois amigos – ou, a essa altura, ex-amigos –, o cenógrafo Naum Alves de Sousa e a diretora teatral Myriam Muniz. Eles trabalharam duro, ao lado dos músicos e da própria Elis, na concepção do espetáculo ‘Falso Brilhante’, um ato revolucionário que marcaria a história de shows no Brasil. Uma montagem de guerrilha, antes da existência das leis de incentivo, ensaiada em uma sala emprestada pela prefeitura de São Paulo sob o Viaduto do Chá, com os músicos assumindo papel de personagens de uma história praticamente autobiográfica que narrava o canibalismo intrínseco às vidas artísticas de prosperidade. ‘Falso Brilhante’, feito sobretudo à base da fé de Elis em si mesma desde o primeiro dia em que entrou naquela sala com uma vassoura para colocar os ratos para correr antes de começar os ensaios, ficaria em cartaz para centenas de apresentações em um mesmo teatro.

Elis não acreditaria no desenrolar daqueles personagens

Até que o dinheiro começou a entrar e a força da grana mostrou suas garras, exatamente como previa o roteiro de ‘Falso Brilhante’. Naum e Myriam entraram na Justiça contra Elis por se sentirem financeiramente prejudicados. Entendiam que deviam ganhar uma quantia maior sobre a renda bruta do espetáculo por noite, e não só o valor pago no ato da contratação. Elis indignou-se, dizendo que o trato havia sido aceito por todos, e preparou a defesa. Amigos a indicaram o escritório de um jovem advogado de 36 anos, nascido em Tietê, no interior de São Paulo, formato pela Faculdade de Direito do Largo São Francisco e vivendo na capital desde 1957. Seu nome, assim como seus textos jurídicos, era longo e pomposo: Michel Miguel Elias Temer Lulia.

Michel Temer disse não a Elis por ter outros trabalhos naquele momento. Quem assumiu o caso foi seu pupilo, o ainda mais jovem advogado Edgard Silveira Bueno Filho, formado havia apenas cinco anos. Edgard deu um show, venceu as acusações identificando um erro técnico na acusação e se projetou com seu primeiro grande caso, ganhando a confiança de Elis a ponto de ser nomeado por ela para levar de avião seu filho mais velho, João Marcello Bôscoli, até os braços do pai, Ronaldo, no Rio de Janeiro. Elis não viveu para ver o Brasil que desabrocharia daqueles personagens todos em um futuro próximo, mas não é difícil imaginar o que sentiria a malagueta em toda a sua ardência. Quatro anos depois de ‘Falso Brilhante’, dois anos antes de morrer, Elis passava a sacola entre amigos endinheirados, incluindo o presidente de sua gravadora, André Midani, para ajudar Lula, um “barbudinho bravo” de São Bernardo do Campo, a criar o Partido dos Trabalhadores. E então, 35 anos depois, o mesmo partido que ela ajudou a criar teria uma presidente do País sofrendo um impeachment com apoio de seu vice, o mesmo advogado dono do escritório que um dia a defendeu.

Algo me diz que o não de Temer a Elis em 1976 tem a ver com o não que ele diz ao Ministério da Cultura desde o início, primeiro querendo aniquilá-lo em um ato que o tornaria uma subpasta do Ministério da Educação fadada ao sumiço e o segundo agora, reduzindo de 3% para 0,5%, ou 1%, no caso da Loteria Esportiva, a injeção intramuscular que proporcionaria um recurso inédito ao MinC se fosse aplicada como já deveria ter sido. Agora, de acordo com a medida provisória 841, a verba das loterias que iria para setores culturais e esportivos seguirão direto para a compra de munição, treinamento e contratações do novo Fundo Nacional de Segurança Pública. Alguém que disse não a Elis Regina, seja lá pelo cliente que for, jamais teria aptidão para entender que, quando se fala em salvar vidas, investir em Cultura é mais negócio do que comprar armas.