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O mundo entre finitos e infinitos

Júlio Maria

30 Abril 2018 | 22h34

Sempre pensei que o mundo fosse habitado por dois tipos de pessoas, as finitas e as infinitas. Sem temer a redundância, o negócio funciona basicamente assim: as finitas acabam e as infinitas não têm fim – e isso nada tem a ver com a morte. As finitas em geral são mais objetivas, lógicas, sensatas, equilibradas e capazes de revelar toda a sua essência em duas horas de conversa. As infinitas são aquelas pelas quais nos apaixonamos justamente pela incapacidade que sentimos de alcançar o seu fim.

Paulinho da Viola em sua casa, no Rio, em 2013, em imagem de Eduardo Nicolau

As pessoas esgotam-se com mais facilidade e isso pode ser reflexo do nosso treinamento diário em emitir opiniões finitas sobre qualquer coisa. O finito sai de um filme, de um livro, de uma canção ou de uma volta no quarteirão como entrou, inabalável em suas convicções e intransponível em seus limites. Será tocado sim, mas na epiderme, nunca na corrente sanguínea. Já a poética da infinitude tem seu preço. Infinitos são contemplativos, bipolares, imprevisíveis e irremediavelmente abalados pela angústia – um belo conjunto de uma obra apaixonante porque não termina nunca.

O jornalismo nos leva o tempo todo para a frente de pessoas que, de alguma forma, consideramos notícia, por mais falha que essa percepção possa ser comprovada ao longo de nossas carreiras. Não vou falar das finitas, até porque muitas delas nunca estiveram cientes de suas condições de efemeridade e acreditam que realmente vieram ao mundo imbuídas de alguma missão divina, o que inviabiliza qualquer tentativa de um diálogo menos finito. Os encontros com infinitos, felizmente, foram mais frequentes até porque, depois de algum tempo nesse negócio, começamos a perceber o prazo de validade de um gênio se esgotando pelo cheiro e passamos a evitá-los.

Gilberto Gil é, para mim, o mais infinito dos entrevistados. Seu pensamento, produto de uma angústia existencial decantada na certeza de sua pequenez, criou um discurso horizontal e de observação, nunca de julgamentos. Gil parece sintonizar-se a uma frequência de matriz oriental para sobrevoar a pergunta que lhe é feita não em busca de uma resposta, mas de novas e enigmáticas perguntas. O interlocutor aproveita e joga a rede naquele oceano, puxando de volta tudo o que traz sua filosofia do tempo, da fé, da política, da vida e da morte. Música? Eu jamais perderia meu tempo diante de Gil para falar de música.

A infinitude de Paulinho da Viola se revela de outras formas. Ela não está nas palavras, mas nas ações e no silêncio. A angústia o movimenta e cria a indecisão que o faz parar para contemplar a peça de madeira que está diante de si, prestes a ganhar uma nova forma na pequena marcenaria que construiu em casa. As pessoas perguntam quando vem um novo disco sem se dar conta de que ele compõe o tempo todo e se realiza na delicadeza de um artesão. Cada LP de sua estante tem uma história que conta em pausas de mil compassos. Música? Eu jamais perderia meu tempo diante de Paulinho da Viola para falar de qualquer coisa que não fosse música.

A infinitude, contudo, não é dom exclusivo de artistas letrados. Quando se manifesta ao nosso lado pode nos levar a paixões inevitavelmente devastadoras. Os seres mais infinitos poderão até tentar por algum tempo, mas a natureza os condena a jamais serem de alguém. Suas paixões, como tudo na vida, estarão em constante movimento por uma busca que nunca estará terminada.