O coveiro e o jornalista
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O coveiro e o jornalista

Júlio Maria

10 de maio de 2020 | 20h22

Um dia entrevistei um coveiro. Eu caminhava por entre as tumbas do Cemitério da Cachoeirinha com minha filha segurando forte a minha mão enquanto procurávamos a morada eterna de minha mãe. Helena, minha filha, era pequenina, tinha seus seis ou sete anos, e começou a ficar bem preocupada quando ouviu o pai perguntar para o homem do cemitério vestido de verde, depois de andarmos muito, onde, pelo amor dos santos que não pareciam viver ali, ficava a Rua 37 da Quadra 8. Uma chuva começou a se armar em nuvens escuras de nove meses de gravidez e nada de acharmos a lápide de Dona Angela. Abri o guarda-chuvas para proteger Helena e o coveiro passou a nos guiar debaixo dos pingos por caminhos de barro e entre uma ou outra ossada que eu dizia ser madeira.

Sempre entendi que os coveiros e os jornalistas andassem de mãos dadas. Quando a notícia do morto chega, avaliamos o tamanho, definimos o caixão e calculamos a cerimônia para que a última pá de terra caia a tempo de começarmos tudo outra vez. E é assim que tem sido. Há dias com três mortos famosos, outros com dois, mas nunca mais deixamos de atravessar 24 horas sem o enterro de pelo menos uma notoriedade. O sistema jornalístico funerário tem entrado em colapso com frequência e o meu acaba de sofrer um abalo enquanto escrevo esse texto e leio que Betty Wright, a cantora de ‘No Pain, No Gain’, que me acompanhou em tantos bailinhos de lona na Casa Verde, acaba de morrer. Vejo que ela se foi enquanto colocávamos todos os esforços da tarde no funeral de outro gigante, o escritor Sergio Sant’Anna, levado na última madrugada, horas depois de descermos os féretros pesados de Little Richard e do artista plástico Abraham Palatnik, enterrados sob letras comoventes e respeitosas no sábado.

O coveiro me dizia que seu trabalho tinha uma certa metodologia e que o fazia conhecer muita gente de bem. Ele era um homem de bem. Enquanto andávamos pelo barro cada vez mais afofado pela chuva, senti seu coração de manteiga tentando fazer minha filha se acalmar dizendo com voz de criança que os homens que estavam saindo molhados de trás das árvores não eram cadáveres erguidos das tumbas mas pessoas que moravam no cemitério. Não funcionava muito, acho que até piorava um pouco, mas sua intenção era comovente. O coveiro dizia que era preciso ter todo cuidado nos enterros para não perturbar os viventes que choravam seus mortos. Os movimentos deviam ser calculados, sem trancos com os caixões, e a corda teria de descer lentamente, no tempo do adeus e das orações. Ele já havia visto reza de todo jeito e em muitas línguas, feitas por padres, reverendos e rabinos, e também caixões descerem secos de lágrima, com gente do enterro ao lado para ajudar a falta de braços.

O coveiro não sabe o quanto andamos juntos em nossos cemitérios particulares. São tantos mortos que estamos perto de redefinirmos o sentido da própria morte, como se acionássemos um sistema de proteção mental em que passássemos a considerá-la não mais aquela perda eterna, pesada e lacrimosa mas uma ausência apenas breve já que logo, se tudo caminhar nesse vale de sombras, estaremos juntos e felizes mais cedo do que pensávamos. Assim como o coveiro é saudoso do tempo em que descia lentamente os caixões respeitando um ritual silencioso, os jornalistas que fazem da perda a última homenagem em duas páginas a mortos que nunca, de fato, morrerão sentem o mesmo vazio. O tempo das honras de Estado se foi, assim como o tempo e o Estado.

Quando Michael Jackson morreu, em 2009, a redação parou quando alguém gritou: “Michael Jackson morreu.” Eu era editor do Caderno Variedades do Jornal da Tarde e, junto com quem mais estava por perto, mandamos mensagens e ligamos para celulares de todos os repórteres com quem conseguimos falar para que voltassem ao jornal. Começamos a fazer um caderno especial com texto, análise, linha do tempo, fotos e todo o cerimonial que o morto pedia. Aldir Blanc merecia o mesmo, Flávio Migliaccio, Rubem Fonseca, Little Richard, Palatnik e Betty Wright, ao menos para a minha adolescência, também.

Eu, Helena e o coveiro caminhamos por mais uns quinze minutos pelas quadras do cemitério e nada de encontrar o sepulcro de minha mãe. “Acho que pode estar do outro lado”, disse o moço, apontando para um lugar que não puder ver pelos óculos embaçados. Agradecemos então sua generosidade, nos despedimos e decidimos, eu e Helena, irmos embora. Quando caminhávamos, vi um túmulo qualquer, mal cuidado e sem flores, de alguém que não consegui ler o nome. “É esse”, eu disse para Helena, mentindo uma verdade em que ela achou melhor acreditar. Então, abaixamos a cabeça e rezamos como pudemos para alguém que não conhecemos sentindo que minha mãe estava ali.

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