O Brasil estereotipado de Paul McCartney
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O Brasil estereotipado de Paul McCartney

Júlio Maria

10 Setembro 2018 | 19h12

Eu invejo os russos desde que ouvi o ‘Álbum Branco’ pela primeira vez, em alguma tarde de 1985. Eles eram ainda soviéticos, temidos pela eminência do botão vermelho detonador de mísseis atômicos intercontinentais em território norte-americano. Um professor dizia que um pequeno erro de rota os traria diretamente para São Paulo, com grandes chances geométricas de despencarem sobre nossa pequena escola Matilde Macedo Soares, na Casa Verde Alta. Os jovens soviéticos que pareciam não existir – a única juventude visível e sorridente já era a norte-americana – não pareciam ligar tanto para aquilo que meus 12 anos imaginavam ser o auge de qualquer nação: se tornar uma música dos Beatles.

Paul, esbarrando no País

‘Back in the USSR’, gravada pelos Beatles em 1968, tinha, além dos acordes e solos do verão eterno dos Beach Boys e dos versos que falavam do retorno de um rapaz soviético cheio de vida para seu país natal, histórias de bastidores que eram uma delícia. Ringo Starr, em crise existencial, deixou os estúdios e foi para casa, obrigando Paul a tocar a bateria. Ele voltaria mais tarde, atendendo ao apelo dos amigos, e seria recebido com flores, mas a música já estava gravada. A letra não era das mais inspiradas: “As garotas da Ucrânia realmente são demais / Elas dão de mil nas ocidentais / E as garotas de Moscou me fazem cantar e gritar / As da Geórgia não saem da minha cabeça!” Ainda que tivesse a profundidade de uma colher de chá, uma letra com qualquer resquício de Brasil cantada pelos Beatles era algo que provocava meu bombardeio soviético interno e particular.

E então, sete de setembro de 2018 parecia ser o dia. Cinquenta anos depois dos soviéticos ganharem ‘Back in the USSR’, o Brasil inspira uma música de Paul McCartney. O Spotify a apontava como a 11ª faixa, a hora de começar a pagar uma dívida pelo nome: ‘Back in Brazil’. O filme da memória teve a duração exata dos milésimos de segundos de delay que o Spotify leva para tocar algo. Paul e os Beatles, segundo Paul, haviam tirado uma lasca do Brasil em algum momento dos anos 1960. Em 2012, ele disse ao jornalista Luis Antonio Giron, da ‘Revista Época’, que os Beatles tentaram se inspirar na bossa nova quando ela ganhava o mundo: “A gente compôs algumas canções na vibração da bossa nova. Uma delas é ‘The Fool on the Hill’, feita naquele tempo.” Paul foi gentil, mas a beleza à qual se refere, tirando o naturalismo da voz, não convence como referência a qualquer coisa que tenha sido criada no Brasil. Anos depois, já sem os Beatles, quando se preparava para fazer o álbum ‘New’, de 2013, ele voltou a pensar em bossa. “Eu tentei gravar algo nesse ritmo, até por sugestão da Diana Krall (a pianista e também produtora do disco) que já havia gravado Tom Jobim. Mas não funcionou, quem sabe porque faltavam músicos brasileiros.”

O fato é que a angústia terminaria com um clique de celular. ‘Back in Brazil’ nos redimiria dos pecados e uniria uma nação, fechando a semana em que um candidato a presidente havia sido esfaqueado em praça pública. Até os Stones pareciam ter ligações mais íntimas com os brasileiros, fazendo, segundo alguns biógrafos, ‘Honky Tonk Woman’ em um sítio do interior de São Paulo ou conduzindo ‘Sympathy for the Devil’ por uma levada de bateria inspirada nos tambores de terreiro de Salvador. O Brasil agora vinha no nome, ‘Back in Brazil’, muito mais do que o solo que George Harrison havia feito no final de sua vida para um cover de ‘Anna Julia’, do Los Hermanos, gravada por Jim Capaldi. Harrison havia tirado nota por nota do original com direito a slide e tudo. (Eu nunca me esqueço de quando liguei para repercutir o feito com Marcelo Camelo e senti como ele estava incomodado com minha ligação, respondendo algo do tipo: “Cara, essa é uma música como todas as nossas músicas.” Meu Deus, pensei, o cara havia acabado de ter um solo de sua música regravada por George Harrison!!!).

‘Back in Brazil’ começa e o que vai acontecer com as expectativas nos próximos minutos não é bem o que eu esperava. Alguns pássaros cantam na abertura, entra um teclado e começa um ritmo linear diluído entre um reggaton e um chill out eletrônico. A história é de uma garota baiana que conhece um rapaz “alto e bonito” em Salvador. “As noites são para dançar e os dias são para o sol”, diz a letra. Um clipe mostra cenas do casal andando pela cidade. Ela marca com ele no show de Paul, mas o rapaz não chega a tempo. Quando aparece, ela já subiu ao palco da Arena Fonte Nova e deu um abraço em Paul. A cena aconteceu mesmo e foi gravada em 2017. Por alguma razão que soa fora da curva, há uma expressão em japonês que paralisa o ritmo gélido por algum instante: “Ichiban! Ichiban! Ichiban” (algo como “o mais querido!”).

A canção termina e sinto que um bonde passa. ‘Back in Brazil’ soa na contramão de um álbum de afagos transbordantes. Ela vem fria e sem aqueles arrebatamentos emocionais que nos pegam no colo e nos colocam para sonhar ao primeiro toque. Paul não fará uma nova ‘Blackbird’ nem outra ‘Yesterday’. Sua produção relevante já vale por algumas encarnações e mesmo seu modo avião está acima de qualquer média, mas ‘Back in Brazil’ não. Ela está abaixo disso. ‘I Don’t Know’ é saborosa, assim como ‘Happy With You’, ‘Hand in Hand’, ‘Dominoes’ e ‘Despite Repeated Warmings’. O Brasil que levou 60 anos para inspirar Paul McCartney, como mostra o clipe, é ainda um país de estigmas. Um lugar ensolarado, de sorrisos fáceis e capoeiristas pelas ruas. Uma terra que também existe, mas que tem ficado tão saudosa de seus estereótipos mais convincentes quanto eu do Paul McCartney de ‘Back in the USSR’.