O ano em que a Cultura ganhou vida própria
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O ano em que a Cultura ganhou vida própria

Júlio Maria

29 de dezembro de 2018 | 18h48

Cultura como poder libertador, agente transformador, saída autônoma, paralela e complementar à própria educação oficial. Do ponto de vista material, o ano de 2018 termina com uma teórica perda de status da Cultura dentro do cardápio da gestão estatal. De ministério, o MinC, criado em 1985 por decreto do então presidente José Sarney, a área será reduzida, a partir de janeiro de 2019, para se tornar uma secretaria que, ao lado de outras duas (Esportes e Desenvolvimento Social), entrará como a terceira perna do novo Ministério da Cidadania, regido pelo deputado Osmar Terra. Pela ótica da prática, no entanto, ela começa um novo ano paradoxalmente fortalecida depois de dar provas em 2018 de que, para além do entretenimento e dos valores estéticos, tem impactos capazes de despertar consciências e atingir profundidades humanas dividindo plateias de teatro, arquibancadas de estádios de futebol e, em última análise, toda uma Nação.

Roger Waters em foto de Radu Sigheti

Ao mesmo tempo em que o poder público a diminui, ela transborda, revelando crenças dentro de crenças, lutas dentro de lutas. Uma mostra de seu poder de potencializar e descolar discussões teóricas levando-as para a vida se deu em junho, quando a cantora Fabiana Cozza desistiu de viver a sambista Dona Ivone Lara em um musical depois de ter a representatividade racial de sua presença questionada. Fabiana não seria negra o suficiente para ser Dona Ivone. A razão existe nos dois lados, tanto na indignação da cantora e de quem a apoiou quanto nas lideranças que pediram que ela fosse substituída por uma atriz de pele mais preta para se aproximar ao máximo da realidade de uma história que perpassa o preconceito e suas nuances. A discussão, nova para muitos, colocou que as crueldades do racismo é potencialmente maior quanto mais escura for a pele de um negro. Ao final de um ano intenso, o que importa aqui não é quem tem a razão, mas sim que ele, o debate, existiu. E só existiu graças a um ato cultural.

A dimensão política dos concertos de rock, algo que uma geração cresceu sem ver, retornou em outubro, no início da turnê de Roger Waters pelo Brasil. Diante de 45,5 mil pessoas no Allianz Parque, em São Paulo, Waters exibiu sua postura política contrária à eleição de Jair Bolsonaro para presidente da República em meio às chamas de um País que se preparava para ir às urnas com a faca nos dentes. Waters exibiu a frase “#elenão” em seu telão gigante e sentiu a terra tremer. Apoiadores do presidente que seria eleito vaiavam enquanto petistas aplaudiam. As vaias, aos poucos, engoliram os aplausos, e Waters fez um discurso condenando o fascismo pelo mundo. Ao acabar um espetáculo de rock como nunca havia ocorrido no País, o mundo já parecia dividido entre fãs de Roger Waters e ex-fãs de Roger Waters. Condená-lo ou não por ter usado o palco de um estádio para pregar sua crença política e ideológica, algo que o rock nasceu fazendo, já parece uma discussão de dar sono. O que fica, ou deveria ficar, é o fato: em pleno 2018, um homem de 75 anos sai pelo mundo provando a força de uma linguagem provocadora, o rock and roll, capaz de dividir 40 mil fãs pelo fígado para, segundos depois, fazê-los levantar as mãos, acenderem os celulares e cantarem juntos Wish You Were Here.

As águas do mercado editorial entraram no nível morto depois de anos emitindo sinais de alerta. Duas grandes redes de lojas, a Saraiva e a Cultura, pediram socorro financeiro acumulando uma dívida de R$ 325 milhões com as editoras. Nos dominós enfileirados, a loja cai, derruba a editora, que derruba o livro, que derruba o sonho do autor e que pode privar o leitor de novas e grandes obras que não tragam um viés mercadológico tão aparente em sua origem. Uma carta chamada “por amor aos livros”, de Luiz Schwarcz, presidente do Grupo Companhia das Letras, foi publicada falando sobre as dificuldade do setor e as prateleiras vazias de lojas que deixaram de receber produtos por falta de pagamento escancaram o problema. O ano termina com as expectativas diante de uma agressividade maior da gigante online Amazon no mercado e da recuperação de algo que faz tudo se mover para cima ou para baixo nesse universo: o leitor, esse ser que pode estar fazendo cada vez mais seu tempo de leitura migrar para textos de fôlegos bem menores em aparelhos celulares. Antes do mercado editorial, a crise pode estar na própria leitura.

Streaming foi o termo de 2018 para duas áreas que sempre dependeram da tecnologia para circular. A arrecadação das bilheterias de cinemas de todo o mundo deve ser menor do que o lucro dos serviços de filmes por assinatura já em 2019. Não é só. A relevância da produção cinematográfica desses serviços, que por anos sofre certa resistência com tons de preconceito no reino das telas grandes, começa a ser reavaliada pela força de filmes dignos dos maiores prêmios do mercado. Em setembro, Roma, de Alfonso Cuarón, ganhou o Leão de Ouro no Festival de Veneza. A aposta da Netflix disputa agora um Oscar de melhor filme estrangeiro, em 24 de fevereiro. Se ganhar, fará história.

A música também se organiza cada vez mais em torno dos serviços de assinaturas. Segundo números divulgados pelo Comitê Gestor da Internet (CGI) no Fórum da Internet no Brasil, metade da população brasileira ouve músicas e assiste a vídeos pela internet. Entre os entrevistados, 29% baixam músicas, 26% publicam textos, fotos ou vídeos de criação própria, 16% fazem download de filmes e 10% baixam séries. Entre 2014 e 2017, o hábito de consumir em tempo real áudio e vídeo foi de 58% para 71%. Melhoras na remuneração do artista criador da obra devem ser o próximo passo da discussão. Afinal, quanto vale uma canção? A lógica da época das gravadoras parece ser reproduzida até o momento: a roda gira com um pequeno grupo ganhando muito enquanto uma população de músicos e compositores precisa fazer shows para continuar pagando as contas.

Queen no cinema: liberdades poéticas perigosas

E então, quando música e cinema se juntaram em 2018, algo de muito sério aconteceu. Bohemian Rhapsody estreou em meio a certo saudosismo e veneração em torno de Freddie Mercury, o vocalista do Queen, morto em 1991, aos 45 anos de idade, vítima da Aids. Críticos e fãs apontaram imediatamente uma série de desajustes cronológicos na trama, mas nada impediu que o longa dirigido por Bryan Singer rompesse a estratosfera. Ao todo, a obra somou US$ 127 milhões só nos Estados Unidos e mais de US$ 384 milhões no mundo. A música título se tornou a criação do século 20 mais escutada em serviços de streaming, com 1,5 bilhão de reproduções, e, talvez um feito ainda mais significativo: mais jovens descobriram o Queen. Uma marca que pode também assustar a quem confia em histórias vendidas como verdades: em um mundo regido por experiências lucrativas, o sucesso de uma ficção apenas sustentada pela ideia de realidade, o que este filme é, pode encorajar cineastas a fazer o que bem entenderem com os fatos para que seus personagens se tornem mais vendáveis. Seria mais honesto, então, deixar isso claro aos espectadores.

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