No Recife, Compaz derruba a violência com golpes de Cultura
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No Recife, Compaz derruba a violência com golpes de Cultura

Júlio Maria

27 Novembro 2018 | 22h02

Vinte anos ligando um gravador Panasonic na frente de entrevistados que tivessem uma boa história para contar não haviam garantido ainda a força de um personagem capaz de tirar minhas noites de sono. Nem MV Bill na Cidade de Deus apontando para uma turma de meninos enquanto me explicava como eles haviam usado pneus velhos para torrar na tarde anterior um jovem condenado à morte pelo tráfico nem Padre Marcelo Rossi me pedindo ajuda para divulgar a informação de que ele estava na lista das personalidades juradas de morte pelo PCC. Havia força em tudo isso, daquelas de vibrar as pernas de um jovem repórter, mas nada que subvertesse a lógica das tragédias e evitasse de enterrar um pouco mais o meu leitor vivo.

Big, mestre dos meninos de hip hop

Cabelo e barba desalinhados, algo mais que 40 anos e com um fluxo de pensamentos quase indomável, Jorge Melguizo era seu nome. Ex-secretário da Cultura de Medellín, Melguizo ajudou a derrubar a violência em 95% a partir de uma experiência chamada parques-biblioteca nos bairros mais vulneráveis da Colômbia. Sua voz ainda ressoa aqui dentro por duas respostas: “Em vez de dois mil soldados subirem os morros do Rio, por que não mandam dois mil maestros? Por que não enviam dois mil gestores culturais, dois mil técnicos de esportes, dois mil cidadãos?”. E uma outra: “Para se trabalhar em comunidades carentes é preciso ter as três habilidades de um especialista em desarmar explosivos: 1. Conhecimento do território e das pessoas. 2. Paciência para entender a comunidade e somar-se a ela. 3. Muita delicadeza. É preciso acariciar, ser delicado, ser terno.”

Os dias seguintes à entrevista foram bem difíceis por coincidirem, no Brasil, com o anúncio do velório de caixão lacrado do Ministério da Cultura. Melguizo foi forte por aquilo que disse e talvez mais ainda pelo que não disse. O Brasil precisava de sua Medellín. Uma cidade, um bairro, uma rua, uma pensão que baixasse seus índices de violência impregnando seus moradores de ações culturais, arrancando a discussão das planilhas e levando-a para a vida. Um ‘case’ que legitimasse a viabilidade social e econômica do pensamento cultural em cadeia.

Compaz no Alto da Serrinha

Uma mensagem chegou pelo WhatsApp. Era Fabiana Galvão, amiga, jornalista, pernambucana de mais frevos que maracatus, dizendo sobre um homem e um lugar. Murilo Cavalcanti, secretário de segurança urbana, havia lido a entrevista e merecia falar de sua Medellín. Ele estava prestes a embarcar pela 30ª vez para a Colômbia, sua inspiração maior antes de ajudar o poder público ao qual serve a baixar com uma nave espacial em um bairro do Recife que não levava o nome de Linha do Tiro por acaso. Mosana, irmã de Murilo, estava trabalhando em 2003. Vigiada por assaltantes, retirou dinheiro de uma agência bancária no Bairro da Encruzilhada e seguiu para Boa Viagem, onde os criminosos chegaram atirando. Ela ficou paraplégica.

Antes de erguer os concretos de R$ 14 milhões na região do Alto Santa Terezinha, os profissionais desarmaram o explosivo com as três virtudes de Melguizo. 1. Conhecimento: a comunidade recebeu 1,5 mil questionários com perguntas sobre suas vontades. Quais cursos poderiam funcionar? De que seus filhos mais precisavam? Solicitações que não imaginavam começaram a definir as atuações. 2. Tato: Moradores foram recebidos em 12 reuniões e a aproximação começou a se estreitar. Depois de abrir suas portas – que na verdade não existem na arquitetura de frente livre das duas unidades – o Compaz Eduardo Campos estabeleceu os cursos: dança, teatro, música (com duas orquestras), formação de produtores culturais, reforço escolar, artes marciais, gastronomia, apoio psicológico.

Turma que se prepara para entrar no mercado de trabalho

Uma quadra foi reformada, uma piscina reinaugurada, uma horta criada e, a joia da princesa, uma biblioteca, ganhou vida funcionando todos os dias, das 9h às 21h. Só as seis modalidades de artes marciais e um tablado de excelência são procurados por 1,2 mil jovens. Aulas preparam 110 garotos e garotas para o mercado de trabalho. Dez deles foram contratados pela própria unidade. Outo espaço faz a mediação de conflitos familiares, resolvendo casos antes que eles parem na Justiça.

3. Paciência. Quando soube que garotos ainda não absorvidos organizavam um rolezinho desafiador pelo Compaz, o professor de hip hop, Anderson Oliveira, o Big, deu o bote que separa líderes de chefes. Localizou os cabeças do rolê nas redes sociais e os chamou para um pacto: o rolezinho não seria apenas um, mas vários, todos os meses, e a programação com os temas dos encontros seria pensada por eles. O Compaz não era um objeto estranho a ser combatido, mas a casa desses meninos.
Medellín surge de novo quando se descobre que o complexo cultural é fruto de um pensamento em rede. Sozinha, a Secretaria de Cultura não faria esse verão. Aliás, o projeto sai da Secretaria de Segurança Urbana, que em mãos bélicas e olhares míopes estaria treinando a pontaria de suas tropas para o abate sumário dos mesmos jovens que resolveu salvar antes que se tornassem alvo. Ali ainda estão, no mesmo terreno, a Secretaria de Empreendedorismo, da Mulher, dos Direitos Humanos, de Educação, dos Esportes, da Saúde.

Aula de capoeira

Quase dois anos depois de a nave aterrissar naquele terreno onde havia uma boca de fumo sobre uma antiga sede social, os números são divulgados. Enquanto os homicídios subiram 19% no Recife, a região do Alto Santa Terezinha diminuiu essas mortes em 20%. Os homicídios, que foram 72 em 2006, fecham 2018 em 32. Na unidade Ariano Suassuna, os 74 de 2008 caíram para 24 dez anos depois. São os menores índices da série histórica iniciada em 2004.

Se ainda soam frios, que venham as histórias: MC Bruninho, um dos atuais fenômenos no funk rumo a 1 bilhão de views, era um dos alunos do Compaz. Uma funcionária que o ouviu cantar no banheiro gravou sua performance na acústica de um deles e fez sua carreira começar. Ele hoje sustenta a família. “Ensinamos que ele não deveria desrespeitar as mulheres nas letras. Valeu a pena”, diz Big. Beterrô, 10 anos, marcado para matar ou morrer nas frentes do tráfico, com um irmão assassinado a pedradas e outro encarcerado por assalto a ônibus, se tornou um dos craques de futebol e de judô. “O levei a um shopping para comprar um calçado e ele parou em frente à escada rolante assustado perguntando o que era aquilo”, diz o secretário adjunto, Eduardo Machado. Luan de Oliveira, 11 anos, filho da moça da faxina, está debruçado sobre um dos livros que acaba de pegar em uma estante da biblioteca: “O que é a leitura? Ah…”, ele pensa. “Pode parecer que não tem graça, que não é interessante, mas eu começo a ler e sinto que minha cabeça está entrando lá naquela história. E aí é como se eu estivesse mesmo dentro do livro.”

A intervenção militar no Rio de Janeiro custa R$ 1,6 bilhão.
O mesmo valor referente a 100 unidades do Compaz.

Luan está a salvo