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Meus melhores álbuns do ano

Júlio Maria

31 de dezembro de 2020 | 12h39

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Bruce dando lições de como se chegar aos 71 anos cercado de amigos

 

Em minha retrô pessoal, muito pessoal, comecei pelos internacionais sem saber se terei o tempo que gostaria de ter nesse dia 31 de dezembro para falar como pretendia sobre os muitos nacionais que fizeram mais leves as remadas dessa travessia de 2020. Se não conseguir, pronto, furo eu mesmo e os deixo aqui, um a um, tentando defini-los em poucas palavras. Gostaria muito de dissecá-los antes de colocar o Chester no forno. Quem sabe

1. Alaíde Costa em ‘O Anel’ (Alaíde primorosa apropriando-se de um conjunto de canções de Zé Miguel Wisnik tão delicado quanto sua voz. Obrigado, Wisnik) 2. Fabiana Cozza em ‘Dos Santos’ (corajoso como Xangô, terno como Oxum. Os terreiros tremeram com o melhor álbum de temática afro-religiosa que ouvi de todas as dezenas deles lançadas por mês); 3. Zé Manoel com ‘Do Meu Coração Nu’ (a revolta que virou lágrima para se tornar revolta de novo); 4. Fagner com ‘Serenata’ (nenhuma voz é mais forte do que o de Fagner quando esse árabe visita suas memórias afetivas); 5, Joabe Reis com ‘Crew in Church ‘(trombonista capixaba que criou um urban jazz com referências de suingue, funk e jazz instrumental com uma vibração estonteante): 6. Deangelo Silva com ‘Hangout’ (pianista mineiro em ebulição entre os maiores de seu instrumento e com um álbum que aponta para um novo caminho de seu tempo). E 7. Ricardo Vignini com ‘Cubo’ (a viola assumindo todos os seus lugares em uma musicalidade sem fronteiras)

Do que veio lá de fora, fico com esses e não abro. Ano Novo lindo pra todos

 

1. Black Pumas – ‘Black Pumas’

Às vezes pergunto se gosto daquilo que ouço por ter sido seduzido de verdade por ele ou por ser aquilo que ouço um sequestro de afetos que me faz ouvir não mais aquilo, mas algo que já ouvi muito em algum lugar do passado. Vai vendo a treta: Eu gostava do Black Crowes até perceber sua falsidade ideológica como cópia do Faces, a sensacional banda em que Rod Stewart começou ao lado de Ron Wood (e que agradeço ao meu amigo Deni Martins por ter me mostrado). Eu curtia o Alabama Shakes e a voz da Brittany Howard até o dia em que descobri que não, que o Alabama Shakes não existia, que tudo se tratava de um holograma tentando trazer de volta o southern rock, o rock norte-americano sulista e deliciosamente arrastado, de bandas como Juicy Lucy, Allman Brothers, Lynyrd Skynyrd e o The Band (canadenses que, para mim, sempre fizeram o melhor de todos os southern rock). O Oásis e sua tentativa não de soar sempre Beatles mas, pior, de soar sempre ‘Rain’, uma música dos Beatles, nunca me enganou. E quando os meninos do Greta Van Fleet chegaram para o Lollapalooza de 2019 como “os novos Led Zeppelin”, eu já estava preparado para não colaborar com a parte da crítica que os chamava assim (aliás, achei os moleques muito mais Rush do que Zeppelin).

Influência é essencial, mas projeção eterna é patologia. E a lista das fake bands não acaba nunca, com gente que faz sua carreira sobre essas apropriações sem constrangimentos. Mas uma rápida folheada no Spotify dá cabo do que acontece com “bandas cover não autorizadas”: Alabama Shakes: desde 2015 sem lançar nada. The Black Crowes: depois de nove álbuns, encerrou atividades em 2015. Oásis: depois de milhões de discos vendidos, chafurdou no ódio entre os dois irmãos Gallagher em 2009. Greta Van Fleet: lançou um single esse ano, mas alguém se lembra deles? Charles Bradley, morto em 2017 depois de cantar pelo mundo clonando cada passo de James Brown, não deixou nada para ser chamado de seu. E por aí vai até chegarmos ao Black Pumas.

Esses caras me confundem porque tem sempre algo em suas músicas que me parece alguma coisa da Motown e, ainda assim, consigo saber onde começa o Black Pumas. O centro de tudo é conduzido por uma dupla de simbologia racial estupenda formada nos anos xenófobos e racistas de Donald “Muro de Separação do México e Retirada de Crianças Ilegais de Seus Pais” Trump: um jovem negro, ex-cantor de rua e guitarrista chamado Eric Burton, e outro guitarrista e produtor de ascendência mexicana chamado Adrian Quesada. O som que eles fazem é delicioso, cheio de influências (que não me parecem projeções) de artistas do R&B e do soul dos anos 70 e a voz de Burton é arrasadora. O álbum que saiu lá fora em 2019 mas que ganhou projeção em 2020 entra nesta lista como um desejo. Espero demais que não sejam apagados pelo tempo e que se encontrem cada vez mais em suas influências sem se perderem em suas projeções. O hit ‘Colors’ é ótimo, mas ouça também a versão que eles fazem de ‘Fast Car’, da originalíssima Tracy Chapman. E sintam a diferença entre uma versão e um cover.

2. Bruce Springsteen – ‘Letter to You’

Poucos roqueiros com mais de 70 anos conseguem me emocionar mais do que quando tinham 20, 30 ou 40. Minha teoria é a de que, em algum instante, eles se veem diante de uma encruzilhada: 1) Seguirem fiéis a seus preceitos do bom e velho rock and roll pode levá-los ao isolamento e ao apagamento junto às novas gerações. Hoje mesmo, falei com meu filho e sua namorada de 19 anos sobre o que eles sabiam de Beatles e cheguei à conclusão de que, em um dia não muito distante, em duas ou três gerações, quando o conceito de álbum estiver definitivamente enterrado, os Beatles deixarão de ter o mesmo poder. 2) Por outro lado, sair de seus lugares seguros para falar com as novas gerações, chamando participações especiais e se colocando nas mãos de produtores jovens e cool pode afastá-los de quem os seguia e, ao mesmo tempo, torná-los ridiculamente tios contando piadas do passado. Ao ouvir hoje esses velhos heróis, então, quem faz a projeção sou eu: dos 15 aos 47 anos, ou seja, até ontem, queria envelhecer como Eric Clapton. Seguro, reservado e com algum mistérios guardados até o momento de entrar em erupção ao tocar os solos de ‘Someday After a While’ e ‘Five Long Years’. Mas aí, ao lado do tóxico Van Morrison, Clapton abriu a boca pra dizer que não dava a mínima para o distanciamento social e eu resolvi colocá-lo em modo soneca por uns 1378 dias. As pessoas então desenterraram um passado ligado a falas racistas e aquilo pegou ainda mais. Não há solos de guitarra que compensem isso.

Aí veio Paul McCartney. Sim, escrevi bem sobre seu novo álbum e acho mesmo que seja um bom disco, mas desde então tenho tentado me apegar a ele além de ‘Pretty Boys’ e ‘Women and Wives’. Em nome do passado, sigo ouvindo ‘Seize the Day’ e ‘The Kiss of Venus’, mas ainda pulo, depois de alguns segundos, ‘Long Tailed Winter Bird’, ‘Find My Way’, ‘Lavatory Lil’, ‘Deep Deep Feeling’ e ‘Deep Down’. Paul me parece agora limpo demais, arrumadinho, coeso e simétrico. É a terceira vez, e a mais higienizada de todas, em que toca todos os instrumentos em um álbum. Sua perfeição me fez lembrar de quando, no meio da pandemia, provocou Mick Jagger dizendo que os Stones os copiavam (os Beatles) e eram mais limitados porque haviam tido como referência bandas de blues. Os Beatles foram mais longe por, segundo disse Paul, terem sido influenciados por outras coisas mais profundas. Acho que Lennon, o mais blues dos Beatles, teria ficado puto com essa fala. Já os Stones responderam entregando o rock sujo que sabem fazer tão bem chamado ‘Living in a Ghost Town’.

Uns dias depois, Bruce Springsteen nos bateu à porta. Era uma tarde cinzenta e sem muitas esperanças quando li sobre o lançamento de ‘Letter to You’ e fui ouvi-lo, primeiro, assistindo ao vídeo da própria ‘Letter to You’. E lá estava Bruce, um Sylvester Stallone do rock, orgulhoso de seu passado, sem querer ser nada além de ele mesmo com alguns anos a mais. Eu me emociono todos os dias ouvindo esse álbum por três detalhes: as entradas do Hammond de Charles Giordano trazem todas as esperanças do mundo de volta, as guitarras de Steven Van Zandt e Nils Lofgren fazem a poeira subir com acordes cheios de cordas soltas em ‘Last Man Standing’ e ‘Ghosts’ e o êxtase no final de ‘Janey Needs A Shooter Now’ me faz sorrir em qualquer lugar onde esteja. ‘Letter to You’ é um disco real feito por velhos amigos que viveram dias bem ruins, perderam gente incrível pelo caminho, como o saxofonista Clarence Clemons, e brigaram muitas vezes, mas estão lá tocando e sorrindo juntos. E isso será sempre maior do que qualquer virtuoso solitário. Ah, ouça ‘Song for Orphans’ e descubra como Bruce reverencia Bob Dylan. Depois, aproveite para ouvir, ou reouvir, ‘Rough and Rowdy Ways’, o disco que Dylan também lançou em 2020 depois de oito anos sem nada inédito.

3. Norah Jones – ‘Pick me Up on the Floor’

Se existem paixões artísticas, confesso: me apaixonei por Norah Jones em algum instante de 2020. Esse não é um álbum de suas maiores entregas pop, mas tem uma solidão tão forte em sua voz de menina triste e calada, e claro que ter sido abandonada pelo pai Ravi Shankar antes mesmo de nascer tem a ver com isso (me lembro do terror que foi entrevistá-la no início dos anos 2002, com assessores ameaçando jornalistas que fizessem qualquer menção ao pai) que ela soou alto por aqui por muitas horas de 2020. Não sei nem se é um dos melhores discos de Norah, mas foi ele que deu todo sentido a muitas noites de chuva. Norah fez um álbum noturno e que ganha outros significados em temperaturas frias e em vidas isoladas. Talvez por isso, faixas lindas como ‘Stumble On My Way’, ‘How I Deep’ e ‘Hurts To Be Alone’, a trilha de algum filme de nossas vidas, ficam ainda mais belas. ‘To Live’ deve ser o ponto de respiro de uma felicidade gospel que a voz de Norah nunca deixará ser plena, e talvez seja essa incapacidade de ser feliz, ou esse desafio em retirar seus sorrisos, que a torna um desafio apaixonante.

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