Mentiras de um camarim
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Mentiras de um camarim

Júlio Maria

20 de setembro de 2017 | 16h20

Ah, os camarins. Não sei em qual de seus livros Gay Talese escreve que não há outro lugar no mundo em que um homem mente mais do que o camarim de um show. Simplesmente uma vez ali, diante de um ser em franca expectativa por uma beatificação em vida, não há escapatória. Ele abre o sorriso e você tem dois ou três segundos para verbalizar não exatamente aquilo que gostaria de dizer, mas tudo o que seu interlocutor precisaria ouvir. “Incrível, que noite!”, “Maravilhoso, maravilhoso!” Não me lembro de conseguir ser mais criativo do que isso, e acredito que todos eles perceberam as vezes em que eu estava sendo delicadamente falso.

Roberto Carlos e suas emoções em alto mar, em 2015. (Foto de Marcos de Paula, Estadão)

Meus problemas com camarins vêm de uma combinação de sensações angustiantes. 1.) Sempre me sentirei atrapalhando pessoas que querem ir para casa descansar depois de um dia de trabalho duro. E 2.) O que esse homem rodeado por súditos tem mesmo a ver com aquele que flutuava há cinco minutos sobre o palco? Em resumo, não consigo ver um ser humano em estado de divindade à minha frente se ele não estiver em cena.

Eu bem que tentei me disfarçar de fã quando entrei na fila de autógrafos no camarim de Roberto Carlos, depois de um show que ele fez em um cassino de Punta Del Leste, no Uruguai. A chance mais próxima que tinha de entrevistá-lo limitava-se a cinco segundos a seu lado – eu e ele abraçados, sorrindo e interpretando uma mentira em estado sólido. O Roberto que conheço não tinha muito a ver com aquele homem, e algo me dizia que ele também não via a hora de acabar com aquela chatice para ir embora. A minha chance estava ali. Eu, um jornalista disfarçado de fã, deveria usar o tempo de uma foto para seduzi-lo a desabafar todos os seus segredos.

Ao ver o fluxo de fãs na fila ajustando-se ao seu lado, sacando fotos e saindo da sala em ato contínuo como malas na esteira de um aeroporto, calculei que teria cinco ou seis segundos para agir. Olhei meu bloco de anotações que preparei no voo e resolvi reduzir o período que iríamos retratar na minha heroica entrevista. Cortei os anos 90 e as perguntas sobre sua devoção religiosa e me concentrei no arco que iniciava na infância em Cachoeiro do Itapemirim e terminava com a gravação de As Baleias, que meu pai gostava muito de ouvir nos anos 80. Uma situação de emergência pedia concisão.

Eu já havia aprendido que a primeira frase em uma entrevista de risco como aquela deveria ser meticulosamente pensada, de tom e inflexão perfeitas. Sem a agressividade dos jovens repórteres nem a submissão dos velhos fãs. “Roberto, você gostou do show?” Horrível. Ouvi de um jornalista das antigas que o choque de uma boa pergunta inesperada atraía qualquer entrevistado: “Roberto, você já traiu alguém?”. Não, a possibilidade de soar como um convite extraconjugal poderia ser um ruído na comunicação. Se fosse fã demais, Roberto faria o que faz com todos eles e me daria o imenso desprezo de seu sorriso. Se fosse jornalista demais, me jogaria aos leões de seus seguranças. Achei: “Roberto, você pode me dizer por que nunca dá entrevistas?” Era aquilo. A verdade sairia com um toque de angústia e cansaço que poderiam comovê-lo.

Eu era o próximo, logo depois de um casal de uruguaios que realizaria o sonho saindo em uma foto com Roberto Carlos ao meio. Um primeiro segurança me deu as ordens: “Seja rápido, sem perguntas e nada de fotos abaixo da cintura.” Confesso que não entendi a terceira cláusula, mas depois imaginei o que seria e pensei em perguntar ao próprio. “Roberto, por que você não gosta de fotos abaixo da cintura?” “Não faça isso”, me disse eu para eu mesmo. Não havia estratégia alguma quando percebi que a foto do casal à frente havia sido mais rápida do que eu esperava, e aquilo me desestabilizou. “Próximo!”, chamou um assessor. E então, minha única entrevista com Roberto Carlos, realizada dentro de um camarim de Punta Del Leste, ficou assim: “Roberto…” “Vamos lá, vamos lá”. “Você…” “Vamos lá, muito bom”. “Eu queria…” “Olha lá, bicho”. Assim que a foto foi feita, ele retirou o braço de minha cintura e me abandonou. “Próximo!”

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