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Mateus Gonsales e o jazz sem egos de ‘Alquimia’

Júlio Maria

02 de setembro de 2021 | 20h05

O jazz do pianista Mateus Gonsales soa como se tudo estivesse sendo criado no mesmo instante em que é tocado. Há uma complexidade harmônica que o faz estar bem amparado por músicos que não apenas saibam ler partituras com precisão e alma, mas também que percebam o tempo todo para que lado sua música segue. Os temas que Mateus assina em seu segundo álbum solo, Alquimia, mostram a destreza de um autor leve e sólido: Dai flui com a beleza dos melhores entardeceres de sua terra, Londrina, e consegue movimentos mesmo nos longos trechos em pedal conduzidos pelo baixista de São Paulo, Thiago Alves, um dos melhores de sua geração; Trickin’ Blues é ligeira, faceira e menos blues, com exceção das blue notes de passagem no tema, do que o título faz imaginar; e Time Lapse 2020 não tem nenhuma estrutura etérea que a ideia do lapso temporal de um tempo que não existiu, o ano de 2020, sugere. Não, o tempo está presente sempre, e é percebido na beleza indisfarçável de sua melodia que não se prende à harmonia, mas escorre por ela o tempo todo.

 

O londrinense Matheus Gonsales

Mateus coloca também na faixa Alquimia a mesma intenção dos outros temas, um pensamento harmônico e melódico que o aproxima do guitarrista Pat Metheny em seu conceito paisagístico. Ouvi-lo é ver o tempo todo, ver o que quer que seja, mas sem sustos nem arroubos. O baterista também de Londrina, Roger Aleixo, é uma presença que muda tudo quando surge, mas que se apresenta por poucas faixas. Thiago gosta dos solos nas regiões mais agudas do instrumento, a região dos riscos, e mostra isso bem em Alquimia. Sua composição Pra Não Ficar Só em Minhas Palavras parte da frase de introdução feita pelo baixo, provavelmente onde tudo nasceu, mas, com a entrada do piano de Gonsales, é logo absorvida para o mesmo território das calmarias, não dos suingues.

A série de temas escolhidos de outros autores traz, o que poderia ser uma surpresa, a belíssima Sonata Para Piano n.º 8 Opus 13, a Patética, de Beethoven, e Carinhoso, de Pixinguinha. O que elas estariam fazendo em um álbum de jazz brasileiro? Esse movimento de trazê-las para o discurso do improviso já depois da apresentação de seus temas, só com baixo e piano, cria dois dos instantes mais sublimes do álbum, alguns desses minutos que surgem por apenas uma vez e que fazem todas as privações vividas por quem decide ser músico valerem a pena.

O fato de não estar mais no primeiro álbum pode ser uma das chaves que expliquem o equilíbrio de volumes e dinâmicas sentidas nas mãos de Mateus Gonsales. Ou não. O álbum de 2017, Mateus Gonsales Trio, já tinha um trabalho cheio de assuntos expostos com maturidade e o disco que ele fez com o Duo Clavis, ao lado do vibrafonista Marcello Casagrande, não era menos sensível. Gonsales não parece precisar das explosões que sua geração busca frequentemente para se afirmar, das cascatas de notas, das transmutações dos temas alheios em campos muitas vezes confusos. O que parece conduzi-lo o tempo todo não é seu ego, mas seu coração.

 

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