Hermeto Pascoal como se fosse Rolling Stones
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Hermeto Pascoal como se fosse Rolling Stones

Júlio Maria

24 Setembro 2018 | 20h54

A ideia que se faz de música instrumental tem passado por uma séria transformação. Se por anos nomes de gigantes como o de Arismar do Espírito Santo, Grupo Pau Brasil, Ulisses Rocha, Raul de Sousa ou Nenê poderiam causar algum distanciamento sobretudo de plateias mais jovens, o que se vê hoje é o início de um entendimento aberto e livre que marca as grandes plateias de jazz pelo mundo. Uma profusão de instrumentistas talentosos e quentes, uma plateia rejuvenescida com muito mais informação e um roteiro de casas e eventos em expansão começam a surtir efeito mesmo em um país sob efeito de cataclismos econômicos, sociais e políticos.  Ao atingir um saudável estado de arte pop, a música instrumental brasileira se torna também uma viabilidade comercial.

Hermeto na Casa das Caldeiras

A mostra mais recente da força de abrangência da música instrumental foi dada pela programação do Sampa Jazz Fest, na última semana. Apesar de problemas estruturais e de informação, como falta da escalação dos grupos e horários de shows em locais visíveis, o line up dos artistas que estiveram pelo palco do Espaço Itaú de Cinema e pela Casa das Caldeiras tem dois prodigiosos méritos: 1.) Muita coragem de montar um festival cheio de patrocinadores chiques com nomes desconhecidos. 2.) Muito cuidado de escolher artistas com assunto. Isso é uma questão séria. Mesmo festivais grandes de jazz feitos por grandes e respeitadas instituições chamam medalhões sem nada de fresco a dizer além da memória afetiva que carregam de um passado distante. O que se viu na última semana foi música boa e bem tocada, além de viva e fresca.

A violinista Carol Panesi, a cantora Dani Gurgel, o saxofonista Esdras Nogueira, a big band de Nelson Ayres, o grupo Bixiga 70, todos com música nova saindo pelos poros. E algo realmente sério aconteceu na noite de sábado, quando vieram ao palco da Casa das Caldeiras a big band pensada por Hermeto Pascoal. O primeiro disco de Hermeto escrevendo para uma formação orquestral é escandalosamente criativo. O que ele chama de música universal às vezes e brincadeira de criança em outras estava toda lá, potencializada por uma das formações mais estelares do mundo. Rubinho Antunes era um dos trompetistas; Josué dos Santos, um dos saxofonistas; e Jaziel Gomes, trombonista. André Marques é o pianista e regente, ao lado de Hermeto há 20 anos, além de Fábio Leal na guitarra, Fábio Gouvea no baixo e Cleber Almeida na bateria. Muito músico bom no mesmo palco, e melhor: um tocando para o outro.

Mas a transformação estava na plateia. Uma massa compacta formada por pessoas com idade entre 25 e 30 anos, interessadas, entregues, fáceis e vibrantes. Um solo de sax ou de baixo tinham como resposta imediata gritos e palmas imensas. Hermeto sentiu o golpe e foi pra cima, falando espirituoso ainda mais que o usual, interrompendo um solo do convidado Arismar do Espírito Santo para ressaltar sua condição de mito ou fazendo toda a big band parar uma música para contar uma história e, então, começar de novo. A plateia de pé vibrava, dançava, sorria e paquerava com taças de gim tônica nas mãos. Antes de Hermeto havia sido o talentoso saxofonista brasiliense Esdras Nogueira a aquecer a pista com uma música que, em outro meio, seria decodificada de forma mais burocrática. Ali, era festa.

Plateia quente e vibrante

Essa é a transformação. As cenas na Casa das Caldeiras mostravam uma realidade à qual se pode chegar com alguma criatividade e e da qual todos saem ganhando. A nova geração de instrumentistas sobretudo baseada em São Paulo garante shows incríveis; cachês justos sem ser astronômicos e uma plateia que quer vê-los. O Sampa Jazz Festival conseguiu se comunicar com o mesmo público que tem escutado jazz fora dos formalismos acadêmicos. Eles preferem dançar ao som de uma banda instrumental na casa Al Janiah, no projeto Jazz Mansion e nas rodas de jazz do Bourbon Street. De olho no potencial pop do instrumental, organizadores anunciam no Parque Buenos Aires, de Higienópolis, o Music in the Park para o dia 30 próximo, das 10h30 às 16h, com o trombonista Jorginho Neto na programação. Quando Hermeto Pascoal surgiu no palco da Casa das Caldeiras, a euforia tinha a dimensão de um palco Sunset do Rock in Rio. Empresários do show biz cansados da falta de patrocínio e da repetição do line up de bandas como Iron Maiden e Metallica: está na hora de olharem para a música instrumental brasileira.