Gil chega ao palco e implode o que seria aqui uma crítica musical
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Gil chega ao palco e implode o que seria aqui uma crítica musical

Júlio Maria

10 de setembro de 2017 | 20h56

Eu levei algum tempo para perceber que não estava exatamente em um show. Digo em um show nos moldes de show, de artista no palco, público nas cadeiras, aplausos, tentativas de se justificar tais aplausos e alguma energia, em maior ou menor grau, conectando uns aos outros. Havia banda, diretor musical, cenário, iluminação, cantores e a expectativa de ver Gilberto Gil falar da força africana que há 40 anos soprou a existência de Refavela – tudo com a carga emocional que Gil tem trazido em quantidades cada vez maiores depois de o vermos saindo e voltando para quartos de hospital.

A trilogia Re, de Refazenda, Refavela e Realce, é, para mim, a explicação da desafiadora personalidade criativa de Gil. O primeiro álbum, de 1975, segue por seu eixo sertanejo, o barro de Luiz Gonzaga moldado por Dominguinhos em Lamento Sertanejo e Tenho Sede, os frutos colhidos no Abacateiro e na oração de Retiros Espirituais. É meu Gil preferido. Dois anos depois, ele volta de uma viagem de mais de 30 dias à Nigéria com os tambores à flor da pele e reavalia a África que existe em si com Refavela, uma espantosa conversa com as criaturas que habitam os céus e os terreiros de sua alma. É o Gil mais baiano de todos. Mais dois anos à frente e o terço que faltava, do urbano e tecnológico, vem purpurinado em Realce e pronto para a alvorada de 1980. O tropicalista que uma década antes havia assustado o povo da MPB mostrando-se por inteiro repartia-se em três para explicar um Gil de cada vez.

Gil em show na quinta, dia 9. Foto de Daniel Teixeira

Achei que o encontro merecesse o olhar crítico e lá fui para o teatro com a alma endurecida pelo ofício. Até que Gil aparecesse, algo que demorou quase dois terços da noite, tudo parecia solto demais, doméstico demais, sem muito ritmo e de emoções pontuais. Uma banda grande montada por Bem Gil, filho e diretor musical, recebeu a pianista e cantora Maira Freitas, filha de Martinho da Vila, o cantor Moreno Veloso, filho de Caetano, e a cantora Céu. Eu já escrevia em meu bloco invisível que, apesar do carisma de Maíra, Moreno precisava de algo mais para se aproximar da interpretação que Aqui e Agora merecia e que Céu deveria rever seriamente a voz que colocou em Gaivota, essa linda canção que Gil fez para Ney Matogrosso e que acabou ficando de fora de Refavela. Eu já espumava, para ser bem sincero, pensando na crítica do dia seguinte, esse encurralamento do caráter, esse eterna escolha do fazer amigos com inverdades do bem versus a solidão dos honestos consigo mesmos. “Eu não gostei daquilo”, ouvi depois de críticos amigos. “Mas quem vai escrever isso amanhã?”, perguntei a mim mesmo.

O que seria uma crítica musical acaba com a chegada ao palco de Gil. Não me lembro mais das músicas que ele cantou porque, para mim, não era mais o que me interessava. Gil passa por cima dos egos de artistas e de críticos de artistas com todas as toneladas que um homem pode atingir quando ele faz o melhor que pode fazer em cada dia de sua vida. Não estou falando do artista, mas do homem. Do pai do carinhoso Bem, seu guitarrista; do avô do pequeno Dom, seu percussionista; do sogro da dedicada Ana Cláudia, sua backing vocal; do amigo de Domenico, seu baterista; do ‘tio’ de Moreno Veloso, seu faz tudo. O que mais me emocionou foi aquela família reunida ao lado de alguém que lhes parece essencial não por ser o artista que é, mas por ser o homem que é. O avô que corre atrás do neto no palco imitando um monstro de voz grave assustadora, que brinca com os filhos errando datas de nascimento, que canta parabéns a você para Maíra e que se emociona ao final, quando um senhor da plateia se aproxima da beira do palco identificando-se como seu antigo chefe dos tempos em que, antes de ser cantor, Gil trabalhava como funcionário da Gessy Lever. “Vicente! Você?” De sorriso grande, Gil trocou os aplausos que aguardavam na ponta das palmas da plateia por aquele reencontro de 50 anos com Vicente, seu último chefe. “E sabem o que ele disse naquele tempo?”, falou, “que era para eu fazer a minha música, que ele me daria uma indenização para eu sair da empresa com algum dinheiro.” O Gilberto Gil artista é incrível mas o homem, acreditem, é muito maior.

Tendências: