Gig Nova: nenhum outro lugar do planeta havia tanto talento por metro quadrado
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Gig Nova: nenhum outro lugar do planeta havia tanto talento por metro quadrado

Júlio Maria

04 de setembro de 2017 | 19h23

A afirmação é um tanto prepotente, mas preciso fazê-la. Algo me diz que, na última quinta-feira (dia 31 de agosto), não havia em nenhum outro clube de jazz do planeta a mesma quantidade de talento reunido por metro quadrado. Ok, sou suspeito. Depois de receber uma dúzia de trabalhos incríveis por mês e não ter como desová-los no competitivo fluxo de matérias que saem todos os dias nos jornais, pensei em juntar todos, fazer matérias de cada um para um especial do portal do Estadão e, o que tem sido o mais vibrante, colocá-los para tocar em formações que eles mesmos nunca haviam experimentado. Confesso que poucas matérias (e considero esse o mais puro exercício jornalístico) me deram tamanho prazer. A história que geralmente nós jornalistas contamos antes ou depois que ela aconteça se materializa ali mesmo, em tempo surreal.

Tupi or Not Tupi em noite de lotação
(ALEX SILVA)

O Gig Nova, com a produção e parceria militante de Debora Venturini, passou para mim (ok, suspeito de novo) no que conhecemos nesse meio como teste da segunda edição (o equivalente ao velho teste do segundo disco). Em geral, o primeiro ato está fresco, é novidade, chega sem expectativas e ganha o jogo muito mais fácil do que o segundo, que precisa, no melhor dos mundos, confirmar que é bom. Sempre pensei que surpreender fosse muito melhor do que confirmar, e acho que é mesmo.

Gig é o nome que os músicos usam para se referir aos grupos formados para seguir cantores ou outros solistas em trabalhos rápidos, em contraponto aos grupos fixos. Roberto Carlos tem sua orquestra, jamais terá uma gig. Marisa Monte, que surge mais esporadicamente, tem gig. Chico Buarque, que estabelece relações e cargos de confiança, não tem. Não dá pra dizer que o já saudoso Wilson das Neves ou o violonista Luiz Claudio Ramos façam parte de uma gig. Gilberto Gil, que toca o tempo todo, usa gig. Caetano Veloso, que escolhe músicos para mudar a linguagem de seus álbuns, também.

O Gig Nova de quinta foi então erguido nos mesmos moldes do primeiro. Quinze músicos dos mais especiais, alguns com históricos maiores, outros menores, encontrados pela noite de São Paulo ao lado de padrinhos renomados ou apenas de seus instrumentos, nos discos e nas dicas que recebo o tempo todo. Tudo por uma ínfima sensação de justiçamento ao tanto que deixo de falar desses caras com o espaço que merecem. São todos, por mais brilho que produzam em um palco e por mais que possam ser referências em seus universos, criaturas invisíveis e sem nome quando percebemos o quanto deveriam ser incensados.

Serviço da casa é interrompido durante shows

A geração atual de músicos jovens que habita São Paulo – Minas Gerais e Recife caminham na mesma toada – pode ser comparada aos anos de fervor do Beco das Garrafas, no Rio de Janeiro, onde se esbarravam, nos anos 1960, Sergio Mendes, Marcos Valle, João Donato, Dom Salvador, Edison Machado, Dom Hum Romão, Raul de Souza, Toninho Pinheiro, Milton Banana, Luiz Carlos Vinhas e tanta gente chique. Muita mesmo, fazendo uma música de altíssimo calibre e, cada um, propondo sua revolução particular ao apontar um novo caminho.

Nos traços em comum da música criada pelos jovens de hoje existe técnica e calor, formação acadêmica e informação urbana, conhecimento de aula e sensação das ruas. O poder do ensino institucionalizado de tornar todos um só, uniformizando talentos em regras e vetos a partir sobretudo dos anos 80, uma prática denunciada há mais de dez anos por Hermeto Pascoal (mas que ninguém leva a sério por Hermeto nunca parecer estar falando sério) parece ter sido bombardeado pela possibilidade sem fim de um conhecimento informal e cruzado.

As quatro gigs da noite, cada uma tocando por 30 minutos, foram formadas assim: Gig 1, com Gabriel Grossi na gaita, Felipe Senna ao piano, Thiago Espírito Santo no baixo e Big na bateria. Grossi, quando deixa a sutileza, é movido por explosão emocional que o leva aos limites da entrega. Um comportamento muito parecido ao baixo de Thiago Espírito Santo, tocado com o corpo, atento, reagindo às provocação de Big com uma agilidade impressionante. Um levantava, o outro cortava. Felipe Senna vem do mundo das trilhas, da vivência erudita, e seus improvisos eram uma expectativa. Mesmo de olhos presos nas partituras (eles ensaiaram os temas que nunca haviam tocado antes por menos de duas horas na tarde do mesmo dia do show), foi aos improvisos com classe, sem arroubos e sem egos.

Felipe Senna, Thiago Espíeito Santo, Big e Gabriel Grossi (Alex Silva)

A Gig 2 teve o violino do francês Nicolas Krassik, o piano do paraibano Salomão Soares, o baixo de Ana Karina Sebastião e a bateria de Pedro Ito. Krassik é de um poder de comunicação irrestrito e viciante. Seu instrumento tem conversa fácil, chama a responsabilidade e precisa cantar. Seu violino assobia e coloca no ouvinte uma canção que ele vai levar na memória. Salomão vem com mãos nervosas quem buscam sempre as altas temperaturas. Seu sangue paraibano não perde as deixas do sotaque abaianizado de Nicolas.

Pedro Ito estabeleceu uma relação muito particular com a bateria. Suas mãos se cruzam pouco e parecem ganhar mais independência por estarem livres do desenho que a maioria dos bateristas seguem. Quando sola, as baquetas em paralelo criam células incomuns que passam por uma caixa firme, seca e marcante. Uma grande personalidade. Ao seu lado, Ana Karina é a baixista dos grooves, do pés no chão e da elevação dos mesmos. Sua função é de menos notas e mais sustentação, e ela faz isso com desenhos atraentes, entre sons e pausas, que a colocam como uma das mais requisitadas instrumentistas da geração.

Nicolas Krassik e Ana Karina Sebastião na segunda gig (Alex Silva)

Havia uma expectativa enorme pela terceira gig, que tinha o violonista Michi Ruzitchska, o pianista Edson Sant’anna e o clarinetista Alexandre Ribeiro. Quando apresentei Alê, senti um silêncio cortante naqueles aplausos. Alê vem de um tratamento contra um câncer que o tirou dos palcos para que ele se recuperasse, contando com uma generosidade comovente de seus amigos. Seria a primeira vez, depois de tanta dor, que subiria a um palco. E eu resolvi não falar nada antes para não manipular os sentimentos da plateia, o que seria uma grande golpe no potencial de sua clarinete em fazer isso por si só. Alê faz uma música nova, de uma escola que passa pelo choro mas que transborda a ela, com um poder de arrebatamento que consegue imprimir em seus discos. E bom que estava ao lado do piano de Edson Sant’anna e do violão de Michi, capazes de conter seus próprios talentos para fazerem a entrega mais generosa.

Salomão Soares: força irrefreável

A Gig 4 poderia ser uma tragédia se as peças fossem outras. Eu me esqueci de escalar um instrumento de harmonia em uma formação que, teoricamente, carecia de um centro, e senti os sérios riscos de ficarmos com um buraco desolador. Da frente de sopros com Jorge Neto ao trombone e Rubinho Antunes ao trompete pulávamos para a sessão rítmica, de Glécio Nascimento no baixo e Mariana Sanchez na bateria. Sem redes de segurança. Enquanto eu corria aos pianistas para saber se queriam subir ao palco e tapar o vão que eu havia deixado, Rubinho e Jorginho atacavam com a força da vontade que passa por cima de todos os espaços. “Estamos desempregados depois dessa”, disse Felipe Senna. Sim, eles viraram o jogo. Glécio, o “baixista de outro planeta”, fazia improvisos e conduções que sugeriam uma harmonia cada vez mais palpável. E Mari, segura em sua concentração solitária e nervosa, aparecia o suficiente para criar a base mais sólida.

Alê Ribeiro em gig arrebatadora, com o pianista Edson Sant’anna e o violonista Michi Ruzitchska

A visão de casa cheia é o grande trunfo. Enquanto houver público, o argumento de que a chamada “música instrumental” (algo que poderia ter qualquer outro nome) é elitista, difícil, cabeça, intransponível e acadêmica não terá sustentação. O Gig Nova 3 já está sendo arquitetado para novembro, não por acaso, na mesma Tupi or Not Tupi.

Rubinho, Jorginho, Glécio e Mari Sanchez, em formação de sopros e sem harmonia

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