Filme sobre Elton John naufraga ao querer agradar Elton John
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Filme sobre Elton John naufraga ao querer agradar Elton John

Júlio Maria

28 de maio de 2019 | 17h19

Talvez a expectativa estivesse alta demais, fazendo de Elton John o depósito de todas as esperanças perdidas. Guardei as lágrimas das últimas duas semanas e entreguei os cinco sentidos como só havia feito no Natal de 1982, quando entrei em um cinema pela primeira vez para assistir ET – O Extraterrestre. Pois bem. Trinta e sete anos depois, lá estava eu, com a mesma sensação, esperando as luzes se apagarem para que a grande história começasse, redimindo a humanidade de seus pecados e justificando toda a minha questionável existência. Enfim, o mundo saberia quem é Elton John, o cara que defendi com faca nos dentes dos ataques de porta de bar, arriscando-me ao colocá-lo na mesma lista de Jimi Hendrix e Jimmy Page, lembrando ser ele o homem que inspirou teorias sobre a importância de reconhecermos o romantismo inerente à condição humana.

Elton John é um filme pronto, está tudo lá: o menino rejeitado pelo pai e sujeito aos humores da mãe que cresceu sufocado pela solidão. Homossexual reprimido, descobre na música primeiro o seu esconderijo e, depois, a sua libertação, mas antes precisa provar ao mundo dos guitar heroes dos anos 1970 que um garoto gordinho de óculos sentado atrás de um piano pode jogar no time de deuses gregos como Robert Plant, Jim Morrison, Paul McCartney, John Lennon e John Lennon. Elton chafurda nas drogas, tenta o suicídio e jura fidelidade a apenas si mesmo e a seu hedonismo. Num dia, consegue um parceiro pelos jornais para colocar letras em suas canções e passa a devolver ao mesmo mundo que o maltrata uma música de sensibilidade extraordinária.

Há algo como três mil maneiras de contar essa história, com todas as paralelas saborosas que circundam a vida de um homem que, aos 72 anos, não para de produzir fatos biográficos. E mesmo que se recorte a década de 1970, aquela em que tudo aconteceu, Elton John já seria um sonho de bilheteria. Era muito difícil errar, mas Rocketman, o filme de Dexter Fletcher, errou e se transformou em uma tentativa de agradar primeiro a Sir Elton John, a pior tentação que um biógrafo pode cair, a maçã que o expulsará do Éden. O fato de haver verdadeiras cenas cinematográficas não mostradas não é tão ruim quanto a proposta de se usar a liberdade dos musicais para fugir de qualquer compromisso cronológico ou documental. A história está em segundo plano, contada às pressas e atabalhoadamente para que cheguem logo as músicas. Essas, sim, ganham versões interpretadas pelo ator Taron Egerton em cenas típicas de uma cine-bio-musical com toda a carga de fantasia que ela pode permitir.

Um Elton criança está à mesa com pai, mãe e avó quando o menino se levanta e começa a cantar I Want Love. A letra tem a ver com aquele momento, mas ela só seria gravada por ele em 2001, e a questão não é apenas de tempo. A linguagem das canções de Elton dos anos 2000 passa longe daquele momento ambientado nos 60. Elton canta uma parte, o pai continua, a avó dá uma canja e a mãe pega o bonde. Muitos outros momentos serão assim, com o povo nas ruas e os namorados de Elton cantando e dançando em um registro broadwayano de pura fantasia em que tudo ou nada pode acontecer. Assim, espetacularizada em números de dança, a música se distancia da história e não está mais ali para banhá-la a ouro, como acontece o tempo todo em Bohemian Raphsody, o filme sobre o Queen.

Elton deve ter gostado de ouvir Taron Egerton cantando suas músicas (em muitas versões contestáveis). Afinal, é uma forma de mostrá-lo de outra maneira, diferente das tantas vezes em que o imitaram. O problema é que, fora Elton, muita gente pode sentir-se distante das emoções que seu piano trouxe para tantos dias de nossas vidas. Um flagrante das mãos do artista no filme, apesar das drogas e das relações sexuais mostradas aparentemente sem restrições, vem depois que o filme acaba. Uma frase tão desnecessária quanto suspeita é aquela que diz algo como “Elton John está casado com David Furnish,que o ama de verdade.” Um dos coprodutores do filme é justamente ele, David Furnish, (leia-se, Elton John).

Cinco curiosidades de Elton John que o filme não mostra
1. ‘Não’ para Jeff Beck
Antes de se consagrar, Elton John teve um convite do guitarrista Jeff Beck para liderar sua banda de apoio. De cada show, Beck ficaria com 90% do cachê de US$ 10 mil enquanto os músicos dividiriam o restante. “Uau, mil dólares por noite”, pensou Elton. Sorte que o amigo Dick James o fez mudar de ideia.

2. ‘Não’ para Ringo Starr
Ringo Starr estava um pouco desorientado depois do final dos Beatles e perguntou humildemente a Elton se ele não poderia participar da próxima turnê do pianista. Mas Roger Pope já havia sido escolhido para substituir Nigel Olsson, e Starr ouviu um delicado “não precisamos agora, obrigado.”

3. Influência de Buddy Holly
Foi depois de ver o astro do rock em ação, ao vivo, que Elton assumiu seus óculos de grau com armações fortes em uma tentativa de parecer alguém descolado. Depois de 18 meses usando os óculos, ele percebeu que não tinha mais como não usar óculos.

4. Encontro com Paul McCartney
Enquanto ensaiava no estúdio Abbey Road para um show que faria com o grupo britânico Barron Knights, Elton ouviu ao lado um piano, chamou o parceiro e amigo de letras Bernie Taupin e entrou. Era Paul McCartney, que chamou o músico para mostrar uma canção que ele havia acabado de fazer chamada Hey Jude.

5. Vaiado depois de Sérgio Mendes
Elton viveu uma noite da qual gostaria de esquecer quando tocou em Paris, em 1966, antes do show de bossa nova do pianista brasileiro Sérgio Mendes e de seu grupo Brasil 66. Assim que Elton entrou no palco com o grupo, com muitos decibéis acima de Sergio, a plateia o vaiou ferozmente.

Fonte: ‘Captain Fantastic – A Espetacular Trajetória de Elton John nos anos 1970’, de Tom Doyle

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