Elza Soares e a derrota do ódio
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Elza Soares e a derrota do ódio

Júlio Maria

07 Junho 2018 | 18h39

Confesso que foi difícil pegar o bonde Elza Soares enquanto ele estava parado na estação e todo mundo se estapeava para entrar ao mesmo tempo. Os bondes Elza sempre provocam a mesma reação. Ouvi ‘Deus é Mulher’ talvez sem o mesmo arrebatamento instantâneo de muitos, um pouco mais desconfiado do que me pareceu antes de conhecê-lo uma espécie de lado B ou parte 2 do transformador ‘A Mulher do Fim do Mundo’. Decidi então ir a um dos shows de Elza no Sesc Vila Mariana e acabei me expondo a tudo ao mesmo tempo: som, imagem, luz, escuridão, banda, voz, silêncio e Elza, a do palco e a do estúdio.

Elza e Garrincha, em 1966 (arquivo Estadão)

Elza Soares se tornou uma entidade em vida, a rainha Njinga disposta a vingar o próprio passado na ponta de seu verbo, um oráculo livre de contágios e engajamentos de Facebook, a mulher que foi até o fim do mundo e voltou para decretar guerra não ao outro, não ao homem e não ao branco, mas ao ódio. E Elza faz isso com rara legitimidade por uma única questão: ninguém sobreviveria à mágoa da história que viveu sem passar a gestar um monstro em si. Ao vencê-lo, ela carrega na pele a linha do tempo de um povo e sobe ao trono como um Deus mulher.

Aos 11 anos de idade, seu pai a fez sair da escola para se casar com um amigo que a submeteria aos primeiros casos de ciúmes extremados de uma longa vida que, ao que consta em apurações paralelas – oficialmente, ela não abre o jogo – chega aos 88 anos. Seu primeiro filho viria aos 12. O segundo, morreria de problemas pulmonares quando ela tinha 15. Aos 21, era viúva com cinco meninos para criar. Antes de ser cantora, foi empregada doméstica e faxineira.

Surgiu pela primeira vez em um programa de rádio em 1953, ‘Calouros em Desfile’, de Ary Barroso. Ao ver a menina de corpo franzino usando o vestido da mãe e as chiquinhas no cabelo, Ary iniciou um diálogo que se tornaria antológico menos pelo escárnio do apresentador e mais pela rapidez de Elza: “De que planeta você veio, minha filha?” “Do planeta fome, seu Ary.” Sua interpretação de ‘Lama’, de Paulo Marques e Alice Chaves, garantiria o prêmio principal.

Mais tarde, em 1968, se casaria com Garrincha e enfrentaria a inquisição de uma opinião pública que não admitia a jovem cantora negra se aproveitando, aos olhos do senso comum, de um craque da Seleção Brasileira. Elza era vaiada pelas ruas, levava ovadas, sua casa era pichada e as ameaças de morte chegavam pelo telefone. Sesc Vila Mariana, 2018: “Mil nações, moldaram minha cara, minha voz, uso pra dizer o que se cala. Ser feliz no vão, no triste, é força que me embala, o meu País é meu lugar de fala.”

Garrincha dirigia embriagado seu Galaxie pela Rodovia Dutra em 13 de abril de 1969 quando um caminhão o fechou e provocou um acidente grave. Garrincha e a filha, Sara, sobreviveram, mas a mãe de Elza foi arremessada para fora do carro e teve morte instantânea. Alguns meses depois, sem luto nem velas, tiros foram disparados contra a casa do casal. Abalado pela iminência de uma prisão, jamais confirmada, o casal se mudou para a Itália para voltar apenas seis anos depois. Garrincha, transpirando o doce ardido do álcool curtido em crises de ciúmes, começou a se desentender com Elza Soares. Vítima de abuso psicológico e moral, ela se tornaria, em 2015, a Maria da Vila Matilde. “Cadê meu celular, eu vou ligar pro 180. Vou entregar teu nome e explicar meu endereço… Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim”.

Garrincha percebeu tarde a mulher que havia perdido. Queria Elza de volta, mas o bonde passou. Devastado pelas próprias memórias, foi ao estoque e entornou a frustração no álcool de cada dia, de cada hora, dos minutos em que bombardeava o fígado o fazendo finalmente explodir no dia 20 de janeiro de 1983, levando-o aos 49 anos de idade.

O único filho de Elza com o homem ao qual declararia amor por toda vida, Garrinchinha, tinha nove anos quando voltava da terra do pai, Magé, Pau Grande, Rio de Janeiro. Era uma tarde de chuva, pista molhada, e o pesadelo se repetiu. O carro derrapou, a porta se abriu e o garoto foi arremessado para fora do automóvel. Elza, pela primeira vez, não quis se levantar mais e caiu em depressão.

Algo deu errado com a previsão que apontava o abismo e Elza deu certo. Seu destino era o trono de um poder legitimado pela dor. Sesc Vila Mariana, 2018. Vigiando do alto de um trono sua banda base estranhamente composta por homens demais e mulheres de menos, ela não derrama uma só lágrima por amor nem por saudade. Quando matou o ódio, mandou junto a autopiedade, os boleros e as canções para poder depor no tribunal do fim do mundo não como vítima, mas como esperança. “Acordo maré, durmo cachoeira / Embaixo sou doce, em cima, salgada / Meu músculo musgo me enche de areia / E fico limpeza debaixo da água / Misturo sólidos com os meus líquidos, dissolvo pranto com a minha baba / Quando tá seco, logo umedeço / Eu não obedeço porque sou molhada / Enxáguo a nascente e lavo a porra toda pra maresia combinar com o meu rio, viu / Minha lagoa engolindo a sua boca, eu vou pingar em quem até já me cuspiu, viu.”