E agora? O que fazer com esse negócio chamado eu?
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E agora? O que fazer com esse negócio chamado eu?

Júlio Maria

21 de março de 2020 | 19h24

A alma então se divide. Uma parte está em alerta, preocupada com um pai de 70 anos dono de uma consciência sanitária de onze e uma filha de onze com um peso nas costas de 70 vendo as profecias bíblicas vencerem a ciência e me perguntando “pai, porque justo na minha vez de viver?” Até que chega forte a outra parte, iluminada por uma frase que talvez valha mais do que a própria poesia da qual foi retirada, com todo o respeito ao poeta. Mas a boa poesia é assim mesmo. Ela cria monstros a cada linha capazes de devorar tudo o que havia sido escrito nas linhas anteriores. “Meu quintal é maior do que o mundo”, saiu do lápis de Manoel de Barros para azar de tudo o que ele já havia sido escrito em O Apanhador de Desperdícios.

Dos quintais maiores que o mundo, das varandas com telas anti-angústia, dos computadores ajustados nos cantinhos de vidas formatadas em 70 metros quadrados, todos vivemos a privação e o medo que nos torna iguais. Independente de tudo o que ganhamos ou conquistamos, só temos a nós mesmos. Sem academia, sem banco, sem escola e sem trabalho, estamos diante da presença agora inescapável de nossa inestimável pessoa. Sem bares, shows, teatros, cinema, motéis, jogos de futebol, igrejas, parques e ruas, o vírus nos tira todas as rotas de fuga para nos dar a nós mesmos. Quanto tempo resistiremos? Depende do que pretendemos fazer com esse negócio chamado eu.

Músicos têm feito coisas das mais lindas nos últimos dias. Eles pegam seus violões para criar canções ou simplesmente cantá-las nas sacadas de suas casas. Posicionam seus celulares sobre pianos e dedicam alguns minutos a entregar uma lasca de suas almas às redes sociais. Sabemos que já estão ou ficarão com as contas todas atrasadas em pouco tempo, e também que uma boa parte da audiência que passou anos os chamando de vagabundos aproveitadores sem entender uma vírgula do que diziam não merecia ter seus dias alentados por suas vozes e seus instrumentos. Mas músico é bicho teimoso. Depois de abrir mão de uma vida muito mais fácil, com registro em carteira, férias e 13º salário, essas coisas que há uma semana a humanidade chamava de emprego fixo, eles apanham, levam pedrada, perdem patrocínio, sofrem xingamento e ouvem um presidente discriminá-los oficialmente diante de 210 milhões de pessoas até que alguém se senta para ouvi-los. Sem pedir credenciais ou selecionar cor, orientação sexual e preferências eleitorais, eles se entregam a quem quer que esteja ali como se fosse o último blues, a última valsa, o samba da despedida. E depois de eternizarem os três ou quatro minutos que dura uma canção, voltam para suas vidas até poderem fazer tudo de novo.

Ao fim da minha primeira semana no esquema home office, a primeira em mais de 20 anos servindo nas baias do Estadão, marchando pelo longo corredor do sexto andar que viu meus cabelos nuvearem, meus filhos crescerem e minha esperança mudar de cor, resolvi fazer meu quintal ficar maior do que o mundo. Ou, pelo menos, do que o meu mundo. Não se assuste se um post feito por um músico em uma sacada se tornar uma matéria de jornal, mas é para eles que pretendo olhar.

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