Crítica: Luzia Dvorek e o canto interno que não transborda
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Crítica: Luzia Dvorek e o canto interno que não transborda

Júlio Maria

31 de janeiro de 2020 | 18h46

A cantora Luzia Dvorek levou para o palco do Sesc Pompeia o repertório de seu segundo disco, ‘Canjerê’. Fez um show na quinta (30) sem as participações que o álbum traz, com Lirinha declamando versos na abertura de ‘Sambinha’, música de Peri Pane e arrudA, e Zeca Baleiro dando voz a parte de ‘Parece Vício’, dele mesmo e de Targino Gondim. Os músicos que gravaram com ela estavam ali, gente experiente como o percussionista Dalua e o tecladista e acordeonista André Lima. A produção do álbum foi de Lucas Santtana; o baixo certo, de marcações de cabeças de tempo, do primo Marcelo Dworecki; um belo set de percussão com pensamento de batera de Felipe Roseno; e o violão e a guitarra de Paulo Dáfilin.

Luzia no palco do Sesc Pompeia em foto de Gustavo Ramos

‘Canjerê’ tem um bom repertório, mas Luzia mostra fragilidade no acabamento do seu canto. Ela faz uma busca pela interpretação mais profunda e escolhe bem as letras que canta, mas não chega aos lugares aos quais deseja, ficando na ideia de um canto interno que não transborda, no meio de um caminho idealizado que não se torna real. A crença em si é importante mas também pode prejudicá-la, impedindo que ouça o resultado do que produz com uma honestidade impetuosa de quem se dispõe até mesmo a se desconstruir para renascer. Seu canto é uma sequência de frases e notas frouxas, sem sustentação, com métricas duras, deslocadas e deslizes de ritmo. E deixá-lo passar assim é, também, um pecado de produção.

Há força nas músicas de ‘Canjerê’ – o show foi feito também canções de seu primeiro álbum, de 2012. Sobre ‘Canjerê’, ‘Sambinha’ é um samba sentido no grave do surdo, dramático e forte. ‘Preparação para a Morte’, de Danilo Moraes e Paulo Cesar de Carvalho, seria o ‘hit’ em outros tempos. Ela traz uma ideia que começou a ser repisada, a do “quando chegar a morte, não sentirei mais nada, já terei morrido antes da tua chegada”, desde que Gil fez, em outro contexto, ‘Não Tenho Medo da Morte’. Há ainda, na sequência, ‘Sorvete’, de Caetano Veloso; ‘Tempo é Ouro’, de Paulo Neto e Zé Ed; ‘O Gosto da Flor’, de Bruno Capinam e Luisão Pereira; ‘Iluminada’, de Roberto Mendes e Jorge Portugal; ‘No Coração da Mata’, de Saulo Duarte; e ‘Tiro de Festim’, de Bapt e Ank. Afinação e ritmo não são requisitos para grandes cantoras em um país que tem Maria Bethânia, inquestionavelmente, como uma de suas maiores. Não são termos técnicos que fazem a emoção chegar, mas eles podem enfraquecer a mensagem e travar a emoção quando não se tem o brilho dos deuses que surge para atropelar todos os males.

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