Blue Note chega a São Paulo desafiando as profecias do apocalipse
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Blue Note chega a São Paulo desafiando as profecias do apocalipse

Júlio Maria

16 Dezembro 2018 | 21h04

A Blue Note, casa de shows das mais emblemáticas do mundo do jazz e de matriz norte-americana, terá uma filial aberta em São Paulo. A data prevista para a inauguração é 15 de fevereiro e os primeiros shows já estão fechados. A investida é dos empresários Luiz Calainho e Facundo Guerra e o endereço fica em um dos pontos mais cobiçados do cidade, na esquina da Avenida Paulista com Rua Augusta, no segundo andar do Conjunto Nacional.

Facundo e Calainho na porta do novo Blue Note, em foto de Tiago Queiroz

A reportagem esteve no local na última quinta-feira para conhecer o espaço, mesmo com as obras em andamento. O projeto é ambicioso e deve usar sua geografia privilegiada para se diferenciar das outras casas. São 346 lugares disponíveis em uma área de 800 metros quadrados e um palco confortável, de 35 metros de largura. Ao fundo, as vidraças permitem que se veja parte da Avenida Paulista enquanto os músicos tocam. Dentre os shows já confirmados estão os de Carlos Malta, Robertinho Silva e Marcos Suzano (15 de fevereiro), Leny Andrade Trio (20 de fevereiro), Leandro Cabral em tributo a Herbie Hancock (6 de março), João Bosco (22 de março) e Cesar Camargo Mariano (12 e 13 de abril). O preço dos ingressos deverá ficar entre R$ 120 a R$ 480.

Aos domingos, para aproveitar o clima de passeio familiar com a Avenida Paulista fechada, a banda residente da casa vai se apresentar na varanda do segundo andar, onde poderá ser vista pelas pessoas da avenida. O restaurante, aberto durante o dia, será outra aposta dos empresários. “Queremos resgatar a gastronomia boêmia do final dos anos 70 e início dos 80 com pratos como filé a Diana com arroz a piamontese, coquetel de camarão e estrogonofe com batata frita e arroz”, diz Facundo.
O primeiro desafio do Blue Note em São Paulo, no entanto, é a recuperação de sua credibilidade junto ao meio musical. A primeira unidade do Blue Note no Brasil foi inaugurada no Rio de Janeiro, em agosto de 2017, na Lagoa. Desde então, problemas financeiros fizeram com que pagamentos de cachês de artistas e bandas fossem atrasados, provocando protestos em redes sociais e um boca a boca negativo no meio, reforçando a ideia de que a casa não pagava músicos. Como garantir a credibilidade na nova unidade?

Luiz Calainho fala sobre a crise no Blue Note do Rio. Ele conta que a história será outra em São Paulo, primeiro, por um fator crucial. “No Rio, tivemos cotas de patrocínio, mas aqui teremos uma cota máxima, de apresentador, o que não tivemos lá.” A empresa Porto Seguro Cartões, como apresentadora da marca, mais os patrocinadores Estácio e Azul Linhas Aéreas devem amenizar os custos do projeto avaliado em R$ 3,2 milhões. “O Blue Note de São Paulo vai servir para salvar o do Rio. Uma parte do meu lucro será colocado lá, além de alguns patrocinadores que também estarão na unidade do Rio”, diz Calainho.

Ele conta que as dificuldades começaram com a desistência de uma empresa que seria a patrocinadora muito perto da estreia da casa. “O Rio foi à lona, a violência explodiu e o patrocinador acabou desistindo.” Um terceiro impacto, como diz o empresário, piorou o cenário um pouco mais. “Abrimos o clube no dia em que foi deflagrada uma guerra na Rocinha, entre governo e traficantes. As pessoas não saíam mais. Imagine que 13 hotéis fecharam da Olimpíada até hoje.” Ele volta a falar do descontentamento dos músicos. Alguns ainda cobram seus cachês da casa. “Os artistas estão sendo espetaculares com a gente. Existe um desconforto, estão chateados com toda razão, mas vamos resolver isso. O patrocinador de São Paulo vai para o Rio a partir de janeiro e vamos eliminar esses débitos.” Outra notícia divulgada sobre a dificuldade de se pagar o aluguel do espaço no Rio trouxe mais temor. “Estamos renegociando o valor do aluguel também.” O saldo da experiência turbulenta nesse pouco mais de um ano de Blue Note Rio: “Se soubesse, claro que teria começado por São Paulo.

Mas, apesar das dificuldades, transformamos a casa em um spot de excelência em pouco tempo.”
A ideia inicial de Calainho era abrir a unidade em um shopping center de alto luxo em São Paulo. “Era a minha cabeça errada. Quando falei com Facundo, que era o cara de São Paulo que eu precisava nisso, com cabeça contemporânea, ele disse: ‘não, shopping não!’’ Facundo foi então atrás do endereço da Paulista, cobiçado por vários empresários, mas com problemas burocráticos quase intransponíveis para ser liberado. “A negociação foi dolorosíssima”, diz Facundo. “Dez empresas haviam tentando sem conseguir. Ouvimos não por um ano.”

E mais outro desafio: como fazer com que a experiência Blues Note legitime ingressos mais caros do que os cobrados pela rede do Sesc e por outras casas de jazz de São Paulo? O que deve fazer um fã de jazz preferir ver Hermeto Pascoal ou Amilton Godoy no Blue Note e não no Sesc Pompeia? Investir em formatos diferentes, festivais, shows de caráter tributo e outras ações exclusivas pode ser uma saída para atrair o público mais bem servido de shows do País. E a crise? Algum medo? “A minha paciência acabou”, diz Facundo. “Se a gente não acreditar que isso vai virar… Olha, quem sobreviveu até aqui vai sair na frente a partir do ano que vem. Só meu grupo de empresas vai abrir três negócios em 2019. É isso.”

Programação da casa:

15/02 – Carlos Malta, Robertinho Silva e Marcos Suzano

16/02 – Toquinho

20/02 – Leny Andrade Trio

21, 22 e 23/02 – Os Bossa Nova (Donato, Menescal, Marcos Valle e Carlos Lyra)

27 e 28/2 – Daniel Boaventura e Daniel Jobim

06/03 – Farol de Nazaré tributo a Ray Brown

06/03 – Leandro Cabral em tributo a Herbie Hancock

8/3 – Tributo a Wayne Shorter com Marcelo Martins

9/3 – Tributo a Miles Davis com Jesse Sadoc

15/3 – Azymuth

22/3 – João Bosco

23/3 – Baby do Brasil

27/3 – Tributo a Tim Maia com A Banda do Síndico

29/3 – Hermeto Pascoal

30/3 – Banda Cubana Batanga, a Cuban Night

3/4 – Amilton Godoy

6/4 – Leo Gandelman Beatles in Jazz

11/4 – Yamandú Costa

12 e 13/4 – Cesar Camargo Mariano

24/4 – Tributo a Ella Fitzgerald com Alma Thomas