Baco nos acordou: o blues sempre esteve no front
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Baco nos acordou: o blues sempre esteve no front

Júlio Maria

04 Dezembro 2018 | 21h00

Baco Exu do Blues não é um bluesman, não no sentido literal, e seu disco Bluesman não é o From The Cradle da música brasileira de 2018. É, sim, um passo de fortalecimento no cozimento estético que a cena rap, ou a cena ‘indie rap underground’ que viveu anos à margem da cena ‘indie rap mainstream’, levou ao fogo há pelo menos dez anos e que começa agora a ser entendida até pelo programa da Fátima Bernardes. Seu discurso só ganha força com o recrudescimento do racismo e seu flow gritado é necessário, por mais que prejudique a própria mensagem no produto final. Ou, talvez, o grito seja a própria mensagem.

BB King em foto de Heinrich Klaffs

A grande sacada de Bluesman, o disco, é o fato de Baco ir ao blues e lhe dar uma dimensão contestatória, política, militante e perturbadora, renovando a abordagem de um texto que pode perder a força de seus versos se não tiver sua forma reinventada. Não se trata de um disco de blues, assim como os álbuns de Kendrick Lamar não se tratam de discos de jazz. O blues é uma entidade, um Exu no terreiro de Baco, e só aparece com evidência na abertura do álbum, com a voz de Muddy Waters em Mannish Boy, de 1955, enquanto é feita uma das mais incríveis costuras de narrativas que o gênero já teve: “Eu sou o primeiro ritmo a formar pretos ricos / O primeiro ritmo que tornou pretos livres / Anel no dedo em cada um dos cinco / Vento na minha cara eu me sinto vivo / A partir de agora considero tudo blues / O samba é blues, o rock é blues, o jazz é blues / O funk é blues, o soul é blues / Eu sou Exu do Blues / Tudo que quando era preto era do demônio / E depois virou branco e foi aceito eu vou chamar de blues / É isso, entenda / Jesus é blues”.

BB King, outra música, cita o rei do blues apenas em uma frase. “Você rima como se fosse o BB King solando.” E mais para frente, vem outro texto colocando toda a carga que um dia viria a ser do rock and roll nas costas de seu avô, o blues, o verdadeiro rebelde. “Se você não se enquadra no que se espera, você é um bluesman.” Ike Turner, de quem Tina foi saco de pancadas por anos, morreu jurando que Elvis Presley não fez nada além de surrupiar as sequências de acordes dos negros para deixá-los morrer pobres. BB King, por sua vez, morreu beijando Eric Clapton e todos os guitarristas brancos ingleses dos anos 1970 por darem a uma geração de bluesmen uma dignidade que os Estados Unidos não lhe garantiam mais.

Na árvore genealógica de Baco, o blues e o rap estão sobrepostos. O primeiro libertou o coração dos escravos e o segundo, a consciência. Poder cantar para a mulher amada era mais do que isso naqueles campos do Mississippi do final do século 19. Os escravos, que já traziam dos mercados de carne negra do Mali o blues praticamente formatado em suas escalas de cinco notas (por mais que os norte-americanos apresentem exames de DNA, os norte-africanos já haviam gerado esta criança pelo menos um século antes), começaram, ali, a dominar o mundo. Silencioso, aparentemente inofensivo, saído de violões carcomidos e vozes abafadas, o blues deixou os campos de algodão do Sul, entrou nas igrejas protestantes do Harlem e viajou para os palcos eletrificados de Chicago engravidando homens e mulheres com seu sêmen bíblico que o tornaria pai de tudo. “O rock é blues, o jazz é blues, o funk é blues, o soul é blues”. Ou seja, toda a música pop ocidental de massa, de Jerry Lee Lewis a Justin Bieber, de Beatles a Lady Gaga, todos são blues.

Baco coloca foco também onde não mira e chama atenção para um fato obscuro. Nem só de canções de desamor o blues foi feito. Eles são raros, mas existiram: os bluesmen politizados que colocaram cabeças a prêmio não são lembrados em um ritmo historicamente mais identificado com o próprio significado da palavra blues (nostalgia, deprê, bode). Esses heróis são poucos, mas aqui vai a lista de algumas vozes do blues que, hoje, poderiam ser grandes vozes do rap – JB Lenoir: nascido no Mississippi, falou corajosamente contra a Guerra do Vietnã (Vietnam Blues) e contra o racismo (Alabama Blues); Bessie Smith: em 1928, mandou ver contra o “senhor homem rico” em Poor Man Blues; Leadbelly: em 1937, cantou The Burgeois Blues, o “blues da burguesia”, disparando contra brancos que “sabem como chamar um negro de preto para vê-lo se curvar”. O blues sempre foi rap.