A tropa de choque de Kim Jong-un
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A tropa de choque de Kim Jong-un

Júlio Maria

11 de setembro de 2017 | 19h45

Esgotadas as negociações que nunca sequer começaram entre Coreia do Norte e Estados Unidos, a esperança para o terço do planeta que Kim Jong-un tem pensado seriamente em varrer do mapa está nas mãos de vinte garotas cheias de algum talento para aprender instrumentos musicais. Suas músicas têm tudo para acionar memórias afetivas de fazer o líder supremo tremer os joelhos, partindo como mísseis em direção a alguma região por trás das medalhas e condecorações daquele peito orgulhoso onde também, depois de algum tempo, encontra-se um coração.

As meninas são todas integrantes do Moranbong Band, a banda oficial da Coreia do Norte formada só por mulheres como mais um dos brinquedos de estimação de Kim. Depois de escolher cada garota, ele as equipou com os melhores violinos, violoncelos e teclados japoneses Yamaha antes de imaginar que um de seus mísseis poderia um dia cair justamente sobre a empresa de Shizuoka, as militarizou dos cortes de cabelo joãozinho ao imperial molejo das cinturas e as fez uma superpotência sonora. Como o pai Kim Jong-Il, que também nomeava grupos musicais de Pyongyang menos explosivos, Kim filho tem uma obsessão bélica por música desde que viu os vizinhos cheios de graça do outro lado da fronteira dançando ao som de ‘Gangnam Style’. A Moranbong Band foi a reação nuclear à insuportável felicidade juvenil dos sul-coreanos.

A banda oficial de Kim Jong-un, em foto de Damir Sagolj/Reuteurs

A música do Moranbong não é boa, e eu preciso dizer isso com o peito cheio de ar puro quando imagino a vida de um crítico musical norte-coreano que ouse discordar do gosto musical do chefe magnânimo (confesso que dá um friozinho na espinha quando imagino Kim mirando uma de suas ogivas para a divisa da Pompeia com a Vila Romana depois de ler esse texto no Google Tradutor). Ele vai entender, e nem vai se importar, espero. Os críticos de seu país o apoiam: “Se existe um candidato que possa representar a vantagem de uma possível invasão do k pop (o pop sul coreano), esse alguém é a Moranbong Band”, escreveu um deles. Um segundo atingiu o nível máximo da ousadia: “Nós devemos cuidar, no entanto, de não ver essas talentosas artistas vestidas de trajes chamativos como novos arquétipos para a Nova Mulher Moderna na RPDC”. Foi sutil, usando a estratégia de atacar o que imaginou que seu líder também atacaria.

Do pouco que se sabe, Kim Jong-un é casado com uma cantora de música pop e, apesar do pouco suingue nas cadeiras, tem no sangue Kim Jong o apreço pelos sons ocidentais. Seu pai, de topete devidamente alinhado, gostava tanto de Elvis Presley que foi enterrado em um legítimo Lincoln Continental, uma réplica do carro de que o roqueiro mais gostava. Isso tudo bem antes de imaginar que o filho pensaria em desenvolver mísseis intercontinentais capazes de derreter Graceland, a morada de Elvis, no estado do Tennessee, e todo o sudoeste dos Estados Unidos por tabela.

As meninas da Moranbong Band estarão incrivelmente inspiradas na próxima apresentação para seu bandleader Kim Jong-un. A pianista Kim Yong-mi fará solos de sintetizador alucinantes, Kim Jong-mi levará seu piano às alturas e o saxofone de Choi Jeong-im estará em um dia especial. O líder vai fechar os olhos do alto de seu camarote vermelho e refletir o quanto se considera superior a Bin Laden, que adorava Whitney Houston; que pode deixar Mahmoud Ahmadinejad nas chinelas, que ainda adora Chris de Burg; e a vala que o separa de Muammar Kadafi, que morreu devendo uma eleição a Lionel Richie e sua ‘All Night Long’. Sobre Donald Trump? Esse tem uma artilharia pesada, com Neil Young, Rolling Stones, Queen e Elton John na playlist. O problema é que, ao contrário da devoção da Morambong Band, nenhum dos ídolos de Trump o querem por perto. Kim Jong-un parece ter um exército. Trump, não.

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