Wagner em Brasília

João Luiz Sampaio

24 de junho de 2009 | 17h08

Foram colocados no You Tube vídeos de um concerto de 2007 no qual a Sinfônica de Brasília interpreta trechos de Parsifal e A Valquíria, com regência de Ira Levin e o tenor Howard Haskin.

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Abaixo, a matéria que escrevi sobre esse concerto para o “Caderno 2”:

Um deles diz: “É que nem naquela música do Chico, Construção, sabe?” E
começa a cantar: “Morreu na contramão atrapalhando o tráfego.” E aí imita com os braços um trombone, depois um violino: “E a música fica atrás, descrevendo tudo.” A conversa entre dois jovens, de bermudas, camisetas, chinelos, não tem nada demais. Ou não teria, se não tivesse sido ouvida na porta do Teatro Nacional Cláudio Santoro, no intervalo de um concerto da Sinfônica Nacional, que acabara de interpretar o segundo ato de Parsifal, a última das criações do alemão Richard Wagner. “É música descritiva, cara, ópera é isso aí.”


Há algo acontecendo em Brasília. No coração do Eixo Monumental, no fim de outubro, um Teatro Nacional quase lotado assistiu a mais um concerto de uma orquestra que está lutando para redefinir sua imagem no cenário brasileiro. Contrataram um novo maestro, o norte-americano Ira Levin, ex-Municipal de São Paulo; dobraram a quantidade de concertos, foram 35 ao longo do ano, que passaram a explorar um repertório mais arriscado, do qual Wagner é apenas o mais recente exemplo; para o ano que vem, já estão previstos 30 programas diferentes, com obras de autores brasileiros, pilares do repertório (a seqüência da integral sinfônica de Mahler) e peças nunca executadas no País, como o Concerto para Piano do compositor norte-americano John Corigliano, uma seleção de sinfonias do inglês Ralph Vaughan-Williams e a Sinfonia Kullervo, do finlandês Jean Sibelius, além da volta da orquestra à produção de óperas – serão duas, La Wally, de Catalani, e uma dobradinha formada por Il Tabarro, de Puccini, e I Pagliacci, de Leoncavallo. “Esta temporada colocou os músicos em contato com um repertório e uma rotina de trabalho a que eles não estavam acostumados. E acho que, apesar de tudo, a orquestra respondeu de maneira excelente ao que foi, no fim das contas, uma total mudança para eles”, diz o maestro Ira Levin.

De volta à porta do Teatro Nacional Claudio Santoro, a conversa continua.
“Você viu aquele pianista que tocou aí outro dia? Véio, o cara é doido, toca de um jeito que não dá para acreditar (mais tarde a gente descobre que eles estão falando de Nelson Freire).” O outro entra na história: “Eu lembro, eu tava aqui, o cara é de outro mundo. Mas gostei mais de hoje.” E a conclusão: “É Wagner, véio, é Wagner. Wagner é do c….” Pior que é mesmo. E os trechos escolhidos para o concerto mostram exatamente por quê. Tanto Parsifal quanto A Valquíria mostram o compositor à vontade na construção de uma nova idéia de ópera, de um drama musical em que texto e música se misturam de maneira intensa, o que, se por um lado ainda espanta os ouvidos, de outro exige cuidados na interpretação. Em que pesem alguns problemas pontuais na orquestra, que ainda espera uma nova leva de músicos para completar seus quadros, a Sinfônica Nacional tocou Wagner atenta às necessidades e particularidades estilísticas. Em outras palavras, soou como Wagner deve soar – o que é mais fácil falar do que fazer.A regência de Ira Levin tem culpa nessa história. Atenta a cada detalhe da partitura, permite que ela floresça em todo o seu potencial dramático, levando aos clímax de maneira muito expressiva. E o mesmo vale para a Kundry de Graciela Araya, repleta de coloridos, ou para o tenor Howard Haskin que, apesar do timbre claro, se sai bem na escrita repleta de contrastes de Parsifal e de Siegmund. E assim a Sinfônica Nacional começa a dar passos em direção a um possível futuro de sucesso. Não há segredos. A experiência nos projetos culturais brasileiras recomenda sempre cautela. Mas parece estarmos diante daqueles
momentos em que talento e vontade política se articulam na construção de um projeto. Nesse sentido, tanto as verbas estatais quanto a criação de uma sociedade de amigos para a orquestra são passos importantes. Resta, claro, o desafio artístico. Como reconstruir a sonoridade de uma orquestra? “Bem, é preciso impor disciplina, seja no que diz respeito à ética no trabalho quanto na música. Tenho trabalhado bastante com o fraseado, a preocupação com o estilo e, na escolha de maestros e solistas convidados, mantenho a mesma preocupação. E fico feliz em ver que esses artistas já sentem diferença na orquestra e na maneira como ela soa. A questão da sonoridade é complexa e tem a ver, claro, com meu ouvido interno, com o que ouço e tento recriar com a orquestra, mas também está relacionada com a acústica do teatro em que tocamos, muito seca, o que exige um cuidado especial na hora de tocar.”

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