Vozes

João Luiz Sampaio

04 de agosto de 2011 | 19h49

Talvez seja o sucesso das transmissões de óperas no cinema mas, depois de um longo hiato, a Sony está lançando em edições nacionais DVDs com montagens recentes do Metropolitan Opera House. Os primeiros quatro títulos são “Madama Butterfly” (Puccini), “Salomé” (Strauss), “Doctor Atomic” (Adams) e “Simon Boccanegra” (Verdi). Estou ouvindo a “Butterfly”, com Patricia Racette e Marcelo Giordani, produção de Anthony Minghella, emocionante em sua simplicidade de efeitos. Já há um tempo ando com a sensação de que Giordani é o mais interessante entre os tenores “italianos” de sua geração. A voz tem um brilho, uma intensidade natural, e ele cria efeitos expressivos muito bonitos. No “Simon”, canta Adorno, um mosaico de cores e sensações na ária, ainda que na montagem a estrela seja mesmo Domingo atacando de barítono. Sabemos que ele começou como barítono e que a voz, ao longo da carreira, foi escurecendo, de forma que parece natural a mudança de repertório a essa altura da vida. Mas não adianta: a musicalidade e a autoridade com que ele encara, aos 70 anos, um dos grandes – tanto musical como dramaticamente – papéis de Verdi, não deixa de impressionar.

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O pacote da Sony também traz quatro CDs da série histórica do Metropolitan, que estão sendo remasterizados pela primeira vez. Até onde pude perceber, são registros inéditos, que estavam nos arquivos do teatro: “Romeu e Julieta”, de Gounod (Bjorling/Sayão/Cooper), “La Bohème”, de Puccini (Albanese/Bergonzi/Schippers), “Tosca”, de Puccini (Price/Corelli/MacNeill/Adler) e “O Barbeiro de Sevilha” (Pons/Di Stefano/ Valdengo/Erede). Lá fora já foi lançada uma “Valquíria” dos anos 50, com Birgit Nilsson, Jon Vicker e Leonie Rysanek em uma orgia de delícias wagnerianas. O curioso nas gravações mais antigas do pacote é que com o passar do tempo elas foram sendo substituídas no nosso imaginário de referências auditivas por outras mais modernas. Para o gosto atual, há na interpretação de boa parte desses artistas alguns maneirismos já fora de moda. Mas a força das vozes é capaz de nos transportar, felizes, a outras épocas. E, em certos momentos, não dá vontade de voltar não…

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