Viagem por uma época

Viagem por uma época

João Luiz Sampaio

29 de maio de 2012 | 22h00

O barítono Christian Immler/Divulgação

A morte, há duas semanas, do barítono alemão Dietrich Fischer-Dieskau, provocou uma sensação mista. Se de um lado é preciso celebrá-lo pelo resgate do lied, a canção de arte de origem germânica, de outro o seu desaparecimento parece ter deixado um vazio, simbolizando o fim de uma era. Daí a concluir que não há herdeiros para a tradição por ele iniciada é um pulo. E um enorme equívoco – como mostra um recém-lançado álbum do barítono alemão Christian Immler, acompanhado pelo pianista Helmut Deutsch – “Modern Times”, dedicada a canções do início do século 20. A gravação segue uma tendência dos últimos tempos no que diz respeito a esse repertório: mais do que ciclos completos de compositores, artistas têm se empenhado em estabelecer paralelos entre as obras de diversos autores, seja por meio de um recorte cronológico, seja utilizando a temática semelhante como ponto de partida para uma investigação a respeito de como cada autor tratou de temas próximos. O diálogo proposto por “Modern Times” mistura essas duas possibilidades. A escolha de nomes como Franz Shreker, Hans Gál, Berthold Goldschmidt, Hans Eisler, Alexander Zemlinsky ou Wilhelm Grosz sugere como recorte o efeito da primeira guerra no repertório de canções. Perante a ruptura provocada pelo conflito, o caráter intimista da Viena do fim do século, em que a descoberta de sensações leva a uma proposta de interiorização do homem, daria lugar a obras que buscassem refletir sobre o mundo – e a precariedade da existência. Immler, no texto do encarte, chama atenção para um outro aspecto. Alguns desses autores foram perseguidos e/ou mortos pelo regime nazista. Entraram para a história, escreve o barítono, mais pela biografia do que por conta da qualidade musical. Não dá para dissociar uma coisa da outra – mas também, acredita ele, não se pode ver a música apenas como detalhe em suas trajetórias.

Ouça a faixa “Das Feurige Männlein”, de Franz Schreker

O recital começa com a diversidade que é uma das marcas principais da obra de Schreker, representada em duas canções, a dissonante “Das Feurige…” (O Gnomo…) e a lírica “Un Wie Mag die Lieb” (E Como Pode Nascer o Amor?), escrita a partir de poema de Rilke. Hans Gál evoca, em suas “Cinco Melodias Op. 33”, o repertório romântico, assim como Korngold no ciclo “Songs of the Clowns” (Canções dos Palhaços), baseado em Shakespeare. Já Goldschmidt nos sugere, em forma e conteúdo, a sensação do não pertencimento ao mundo, tão característica da passagem do século, enquanto Zemlinsky aposta na economia de meios em seus “Lieder Op. 27”, que vez ou outra flerta com Debussy, em especial na leitura transparente do piano de Helmut Deutsch. Eisler, em “Ballade von der Krüppelgarde”, faz um libelo contra a guerra ao criar um coro sarcástico de soldados que voltaram feridos da guerra. Seja qual for o recorte escolhido, um recital de canções não funciona sem uma atenção especial à união de música e palavra, que pode simbolizar a união entre a sociedade e o homem – e o modo como ele lida com os estímulos de seu tempo. Para tanto, piano e voz precisam respirar juntos. E mais do que as qualidades vocais de Immler, barítono de timbre claro e afinação precisa, surge como destaque de “Modern Times” a maneira como se combina ao piano de Deutsch, desde os anos 60 um dos principais acompanhadores de cantores do cenário internacional. Sem exageros, respeitando a linguagem de cada autor e, na diversidade, mostrando o que um período chave da história da cultura ocidental teve de mais rico.

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