Idéias soltas em uma tarde de carnaval

João Luiz Sampaio

22 de fevereiro de 2009 | 16h41

Começo de tarde de domingo, na esquina quase deserta da Paulista com a Augusta um homem, barbas longas e grisalhas, toca seu saxofone. O instrumento marcado, riscado, já sem cor; a música, uma lamento dolorido que, aos poucos se transforma, até enfim chegar ao som do frevo.
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Por um acaso, o argentino Horacio Quiroga, uma “Estação do Amor”, primavera:
“Era terça-feira de Carnaval. Nébel tinha acabado de entrar no corso, já ao escurecer, e enquanto abria o pacote de serpentina olhou o carro que ia na frente. Estranhando um rosto que não havia visto naquele mesmo carro na tarde anterior, perguntou aos companheiros: – Quem é? Até que não é tão feia… – Um demônio! É lindíssima. Parece que é sobrinha do dr. Arrizabalaga. Acho que chegou ontem… (…) Nébel então fixou atentamento os olhos na bela criatura. (…) Tinha, debaixo do cabelo muito escuro, um rosto de suprema brancura, dessa clareza embaçada que é patrimônio exclusivo das cútis muito finas. Olhos azuis, longos, perdendo-se rumo às têmporas entre pestanas negras. Talvez um pouco separados, o que dá, sob um fronte luminosa, um ar de muita nobreza ou de grande teimosia. Mas seus olhos, tal como eram, enchiam aquele semblante em flor com a luz de sua beleza. E, ao senti-los detidos nos seus por um momento, Nébel ficou deslumbrado.” Páginas mais tarde, o outono:”Depois , inerte ao lado daquela mulher que já havia conhecido o amor antes que ele chegasse, subiu do mais recôndito da alma de Nébel o santo orgulho da sua adolescência, de não haver tocada jamais, de não haver roubado sequer um beijo, da criatura que olhava-o com radiante candor. Pensou nas palavras de Dostoievski, que até aquele momento não havia compreendido: nada há de mais belo na vida, e que mais nos fortaleça, que uma recordação pura. Nébel havia guardado essa recordação sem mácula, pureza imaculada de seus dezoito anos, que agora jazia ali, enlameada até o topo, sobre uma cama de criada. Sentiu então sobre seu pescoço duas lágrimas pesadas, silenciosas. Ela, por sua vez, recordaria… E as lágrimas de Lídia continuavam uma atrás da outra, regando, como se fosse uma tumba, o abominável fim de seu único sonho de felicidade.”
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E, então, Beethoven. Sonata nº 26, Les Adieux. Três notas, nada mais do que isso, se repetindo e reinventando, compartilhando entre si a sensação da despedida. Em Beethoven, no entanto, nada é chapado, nada é fácil – na sua música, o ser humano encontra sua expressão mais complexa e reveladora. E em um adeus pode se esconder, ou revelar, um mundo inteiro.

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