Uma orquestra jovem, de sonhos ambiciosos

Uma orquestra jovem, de sonhos ambiciosos

Em apenas três anos, Filarmônica de Goiás se estabelece no cenário sinfônica brasileiro, monta temporada de qualidade e se apresenta esta semana na Sala São Paulo e no Auditório Claudio Santoro, em Campos do Jordão; Antonio Meneses será o solista

João Luiz Sampaio

09 Julho 2015 | 13h35

GOIÂNIA

O trajeto do hotel, próximo ao Parque Flamboyant, até o Centro Cultural Oscar Niemeyer dura pouco mais de dez minutos. Mas o tempo é suficiente para que o regente inglês Neil Thomson fale do trabalho que tem desenvolvido com a Filarmônica de Goiás. “É uma orquestra jovem, que enfrenta as dificuldades inerentes a esse processo. Mas a energia do grupo me fascina.” Ele conhece pouco do Brasil. “E um dos aspectos mais interessantes está sendo conhecer o repertório musical do país. Lá fora sabemos de Villa-Lobos, mas de uma ou outra peça. Eu aqui descobri Guarnieri, Mignone. E neste ano vamos gravar Guerra-Peixe.” Antes, eles fazem uma pequena turnê pelo estado de São Paulo. Hoje, tocam no Conservatório de Tatuí; amanhã, sexta, em Campos do Jordão; e sábado, na Sala São Paulo. Nos últimos dois concertos, serão acompanhados pelo violoncelista Antonio Meneses, com quem interpretam o Concerto para Violoncelo e Orquestra de Elgar. “Para mim é particularmente especial fazer uma grande peça de um autor inglês com um solista como ele”, diz Thompson. “E depois tocamos a Sinfonia nº 2 de Nielsen. Para nós, uma orquestra ainda em formação, me parece ideal, no contexo de uma turnê, buscar um repertório pouco tocado em vez de se dedicar ao grande cânone, o que levaria imediatamente a comparações”, explica, já na chegada ao teatro, antes de correr para o camarim.

O Cento Cultural Oscar Niemeyer é um complexo que ocupa uma área de 26 mil metros quadrados nos limites da capital goiana. É composto de uma biblioteca – que ainda não está em funcionamento – um museu e um teatro, o Palácio da Música, além de um monumento aos direitos humanos. É também a sede da Filarmônica de Goiás, que, na noite do dia 23 de junho, atraiu ao espaço uma pequena multidão: na porta do palácio, uma fila não parava de crescer, enquanto funcionários do grupo avisavam que a lotação de quase 2 mil pessoas já estava esgotada – e que o concerto seria repetido naquele fim de semana, ao ar livre, no Flamboyant, um dos muitos parques que fazem a fama da cidade.

filarmonica

O interesse pelo apresentação daquela noite talvez se justifique pelo repertório: trilhas de filmes como Guerra nas Estrelas, Harry Potter e Indiana Jones, além de Huapango, de Juan Pablo Moncoya, da Suíte Vila Rica, de Camargo Guarnieri (escrita para o filme Rebelião em Vila Rica) e de trechos do Chapéu de Três Pontas, de Manuel De Falla. “Uma apresentação como essa atrai outro tipo de público e isso é interessante”, diz Ana Elisa, durante o intervalo. “O desafio de uma orquestra hoje passa por isso, por essa busca de novas plateias, mas sem esquecer que a alta performance e a qualidade da interpretação não são negociáveis.”

Ana Elisa é o espírito criativo por trás da filarmônica. Pianista formada em Goiânia, com mestrado em piano nos Estados Unidos, foi ela que levou ao governo do Estado a proposta de criação de uma orquestra sinfônica. “Eu havia voltado ao Brasil e trabalhado durante um tempo na Filarmônica de Minas Gerais, onde acompanhei a criação e construção da orquestra”, ela lembra. Em Goiânia, àquela altura, havia uma orquestra jovem e um grupo de câmara, ambos bancados pelo estado. “Mas faltava uma sinfônica profissional. Isso levava a uma situação complicada: formávamos jovens músicos talentosos e eles precisavam ir embora para encontrar oportunidades profissionais. Uma orquestra, nesse sentido, era importante não apenas como símbolo da vitalidade e diversidade cultural do estado, mas também com um elo que pudesse complementar uma cadeia produtiva, o estabelecimento de vez de um mercado.”

Do pequeno embrião, em 2012, à temporada atual, o crescimento é evidente. Este ano, por exemplo, o grupo se divide em diversas séries de apresentação, ocupando vários palcos da cidade e realizando também concertos pensados especialmente para o público jovem. O grupo também faz viagens pelo interior do estado, passando por uma média de 7 cidades por anos. E, em suas séries “oficiais”, no Teatro Goiânia e no Palácio da Música, atrai solistas e maestros de peso. No primeiro semestre, o violonista Fábio Zanon foi solista em uma apresentação do Concerto de Berkeley; os pianistas Sônia Rubinsky e Eduardo Monteiro tocaram concertos de Beethoven (nº 2) e Grieg; o trompista Luiz Garcia, o Concerto nº 1 de Strauss. No segundo semestre, a lista continua: Wagner Barella vai interpretar o Concerto para Oboé, de Strauss; Cristian Budu, o Concerto para Piano de Schumann; Fábio Martino, o Concerto nº 3 de Bartók; Emmanuele Baldini será regente e solista em um programa dedicado a Vivaldi e Piazzolla; Jean-Louis Steuermann fará o Concerto para Piano nº 2 de Rachmaninov e Celina Szrvinsk e Miguel Rosselini, o Concerto para Dois Pianos de Poulenc; a cravista Helena Jank fará um programa dedicado aos Concertos de Brandemburgo de Bach; e Alessandro Sangiorgi vai comandar um concerto dedicado a árias e cenas de óperas, com grande cantores líricos brasileiros, como a mezzo Denise de Freitas.

É uma lista impressionante, em especial para um conjunto tão jovem, e suficiente para colocar a orquestra em lugar de destaque no mapa sinfônico brasileiro. Mas para Ana Elisa, o trabalho está apenas começando – e o grande salto da orquestra ainda está para ser dado, com a transformação do modelo de gestão, por meio de uma organização social. A expectativa é que ele esteja em funcionamento já em 2016. “Se tudo der certo, 2016 será uma espécie de ano zero para nós. Com a nova gestão, poderemos ir de 50 para 70 músicos, o que vai influenciar no tipo de repertório que poderemos fazer.” Thomson se diz animado. “A sensação que me chama a atenção é de que tudo aqui é possível. Claro, há dificuldades, este não é um ano fácil, a própria Osesp passou por um corte de verbas. Mas, com todas as dificuldades, a sensação é de que tudo é possível. E quando vejo uma plateia como a do concerto de hoje, berrando, pedindo bis, aplaudindo sem parar, fico realmente feliz.” E é Ana Elisa que conclui: “O importante em tudo isso é percebermos que a orquestra já é vista, apesar do pouco tempo, como equipamento cultural de importância reconhecida pela comunidade.”

SERVIÇO
Orquestra Filarmônica de Goiás
Quinta, dia 9 de julho
Conservatório de Tatuí
Sexta, dia 10 de julho
Auditório Claudio Santoro (Campos do Jordão)
Sábado, dia 11 de julho
Sala São Paulo