Uma conversa com o violoncelista Mischa Maisky

Uma conversa com o violoncelista Mischa Maisky

João Luiz Sampaio

16 de agosto de 2011 | 11h35

O violoncelista israelense Mischa Maisky faz rapidamente as contas e chega a uma conclusão: já está em sua terceira vida. A primeira dá conta da infância na Rússia. Vem então o episódio da prisão, no início dos anos 70 e a saída para o Ocidente, quando uma nova existência começaria. Já a terceira tem um marco inicial ainda mais pessoal: o nascimento dos últimos dois filhos, hoje com 6 e 2 anos. “É uma maneira de permanecer sempre jovem. Outra é não se olhar muito no espelho”, diz ele.

Maisky está com 63 anos. É um dos grandes nomes da história do instrumento, parceiro da pianista argentina Martha Argerich, solista das principais orquestras europeias e norte-americanas. Tem contrato de exclusividade com o selo Deutsche Grammophon – e mais de 20 gravações no currículo, incluindo três versões para as suítes de Bach para violoncelo solo. Nasceu na Látvia, em janeiro de 1948, de onde seguiu para Leningrado. Por questões políticas, foi preso no começos dos anos 70. Liberado, desertou para o Ocidente, viveu na França, seguiu então para Israel; hoje, vive em Bruxelas.

A trajetória cigana surge na conversa quando ele começa a falar das peças que vai tocar no Brasil no domingo na Sala São Paulo e na terça em Paulínia – Kol Nidrei, de Bruch, e o concerto de Dvorak, com a Orquestra Jovem da Filarmônica de Israel. “É tão difícil falar. Quando você se dá conta de que nem mesmo sua primeira língua, o russo, por conta da dominação soviética, é de fato sua primeira língua, alguma coisa muda dentro de você. Para se ter uma ideia, cada um de meus filhos nasceu em um país diferente. Eu dirijo um carro japonês, meu violoncelo é italiano, o arco, francês. Isso tudo é para dizer que o único elemento comum na minha vida é a música. E é com ela que sei falar melhor. É com ela que se dá todo o meu diálogo interior. Então não sei te explicar o que penso sobre essas peças. Mas espero que, no palco, seja eloquente o suficiente ao interpretá-las.”

Apenas um instrumento. Se o idioma é musical, referências importantes são os professores que o ajudaram a conquistar a fluência do discurso. Maisky foi o único músico a estudar com dois dos maiores violoncelistas do século 20, os russos Mstislav Rostropovich e o Gregor Piatigorsky. O primeiro, ele conheceu ainda na Rússia, no Conservatório de Moscou; o segundo, na França, após mudar-se para o Ocidente. Eram artistas diferentes, de técnicas distintas, diz Mischa. “O contexto de estudo com os dois era diferente. Fui aluno de Rostropovich durante anos, mas ele viajava bastante, o contato não era constante. Com Piatigorsky, foi um período menor, mas mais intenso, de aulas. Todo mundo me pergunta o que cada um fazia de diferente, mas o que me parece mais interessante é justamente o que eles tinham em comum. O violoncelo, para eles, era um instrumento, ou seja, um veículo e jamais um fim em si mesmo. Poucas vezes um dos dois precisou tocar algo para me explicar o que queria dizer. A conversa, acima de tudo, girava em torno de ideias.”

Isso talvez explique as leituras extremamente pessoais que são a marca de Maisky como violoncelista. Críticos que observam com maus olhos suas gravações do repertório barroco chamam seu Bach de romântico demais – o que ele, aliás, vê como elogio; suas escolhas de andamento e a intensidade que coloca em tudo o que toca também estão longe de ser unanimidades. “E daí?” “O importante para mim nunca foi a técnica. Veja as novas gerações de artistas, como eles são tecnicamente impecáveis. É como se você estivesse falando com um computador. Peça para que toquem mais rápido, mais forte, mais alto, mais transparente – e eles são capazes de obedecer. É claro que desmerecer a técnica seria bobagem, precisamos dela. Às vezes, porém, ela se torna uma obsessão. Eu tenho plena consciência de que não sou dos violoncelistas de técnica mais clara, limpa, transparente. Poderia ser, se isso fosse importante para mim. Mas não é, nunca foi. A conexão emocional que a música oferece ainda é o sentido de tudo o que me proponho a fazer.”

Diferença. Para justificar o credo, Maisky recorre mais uma vez à trajetória de vida peculiar. “O que é a arte, para que serve? Devemos sempre manter o otimismo, por que não? Eu vi muitas transformações na Europa das últimas décadas. Mas uma coisa não muda, que é a dificuldade em aceitar e compreender o outro. Sentir-se ameaçado pela diferença ainda é o grande problema do ser humano. Não quero supervalorizar o ato de fazer música, mas ao mesmo tempo entendo que cada um tem de fazer a sua parte, por menor que seja. E, para mim, tocar é, antes de mais nada, estabelecer o diálogo, é estar constantemente de cabeça aberta para tudo o que acontece à minha volta.”

Maisky tem parceiros regulares, com quem se apresenta frequentemente, como a pianista Martha Argerich e o violinista Gidon Kremer, com quem gravou em Viena nos anos 80 o Concerto Duplo, de Brahms, um dos primeiros sucessos depois de deixar a União Soviética. Recentemente, Kremer abandonou o Festival de Verbier, na Suíça, deixando para a direção uma carta na qual criticava o circo que a indústria faz sobre os artistas, deixando a música em segundo plano. Maisky acabou de tocar em Verbier. Concorda com o colega? “Isso não é novo, o business da música existe há mais de um século. O que precisamos é saber, dentro de nós, qual o limite, até onde podemos ir sem contrariar o que somos.” Do outro lado do telefone, o filho mais novo de Maisky começa a chorar, chamando a atenção do pai. “É fascinante”, ele diz. “Adoro observar meus filhos. Eles me ajudam a não ficar preguiçoso, a mente precisa estar sempre aberta. Junto com a música, eles são a minha pátria, eles me dão o sentido de um lar.” O choro continua a chamá-lo, mas ele ainda diz, antes de se despedir. “Espero permanecer jovem. Pelo menos até os 100 anos!”

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