Uma conversa com o pianista Pablo Rossi

Uma conversa com o pianista Pablo Rossi

O pianista se apresenta hoje, dia 25, no Grande Auditório do Masp, e fala sobre Mozart, Chopin, sua formação com duas grandes mestras russas e dos desafios da carreira

João Luiz Sampaio

25 de setembro de 2015 | 10h36

O pianista Pablo Rossi faz hoje à noite um recital na série de câmara da Cultura Artística, no Grande Auditório do Masp. Ele vai interpretar uma seleção de obras de Chopin: Noturno Op. 48 nº 2, 3, Estudos Op. 10 (nºs 5, 6 e 12), Balada nº 3, 3 Estudos Op. 25 (nºs 1, 9 e 11), Noturno Op. 48 nº 1 e o Scherzo nº 1. Mas, antes, ele toca a Sonata em Fá Maior de Mozart. Um dos mais interessantes pianistas de sua geração, ele me concedeu uma breve entrevista, na qual falou do recital e de sua carreira.

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Você poderia falar um pouco das peças escolhidas para o recital? Qual a ideia por trás do programa que será apresentado no Masp?

Sempre dou muito importância para a escolha do repertório nos meus recitais e são muitos os fatores determinantes como, por exemplo, o formato do recital, público alvo e, claro, minha preferência por determinados compositores e obras. No caso do Masp, deixei bem evidente que o foco do programa seria Chopin. Posso dizer que por ter, desde muito cedo, começado a explorar as obras dele, consegui aos poucos desenvolver certa intimidade com elas. Mas, como a ideia não era especificamente fazer um recital monográfico, escolhi a Sonata em Fá Maior de Mozart para abrir o programa. Intuitivamente, sempre achei que a música dos dois autores combinasse muito. Não é por acaso que Chopin considerava Mozart e Bach seus autores preferidos. Tanto Mozart como Chopin exploraram ao máximo as possibilidades dos gêneros musicais de suas épocas, abrindo caminho para verdadeiras “revoluções” na música.

Você estudou no Brasil com Olga Kiun e, mais tarde, mudou-se para a Rússia, onde foi aluno de Elisso Virsaladze. Daria para falar, a partir dessa sua experiência, em uma escola russa de piano? 

Tenho certo receio em classificar os diferentes estilos e tendências pianísticas como “escolas”, principalmente pelo fato desses rótulos virem acompanhados de generalizações superficiais, incompletas para definirem a essência interpretativa de um pianista. Sem dúvida, nas minhas performances, pode-se notar muitas características afins à denominada “escola russa”. Minha formação foi, e é, fruto da dedicação de dois mestres do piano: Olga Kiun e Elisso Virsaladze. Tive muita sorte em encontrar essas duas grandes professoras em momentos diferentes do meu desenvolvimento técnico e musical e, graças a isso, pude desenvolver um “rascunho” do artista que pretendo me tornar daqui em diante, sempre abordando a música com muito respeito e simplicidade, nunca sacrificando a essência da partitura em detrimento da personalidade artística, mas deixando que esta se molde pela genuína música.

O piano sempre foi muito presente na música brasileira – e você faz parte de uma geração de talentos que leva adiante a importância do instrumento no nosso cenário. Em que sentido, no entanto, você diria que é diferente hoje o trabalho do pianista com relação a antigas gerações? Quais os desafios próprios do nosso tempo?

A música, como todos os outros gêneros artísticos, sempre acompanhou o desenvolvimento das sociedades, emergindo como um reflexo das diferentes inflexões e tendências sociais. Antigamente, essas tendências eram muito mais regionais, diferentemente do mundo globalizado de hoje. Com o advento de toda essa “massificação”, penso que a música (especificamente a clássica) perdeu e vem perdendo muito espaço na vida da nossa sociedade. Devido a essa significativa redução da demanda através dos tempos, o meio musical teve que se readaptar às necessidades do mercado, causando, em minha opinião, uma grande planificação e superficialização dos gêneros, estilos e tendências musicais. De maneira geral, vejo que atualmente o artista se sente assombrado pela obrigação de ser rentável comercialmente, em oposição à necessidade de desenvolver sua personalidade musical. Acredito que o grande desafio seja equilibrar todos esses fatores e nunca deixar de acreditar na música por si só, afinal, intérpretes são passageiros e a música é atemporal, perdura!

 

SERVIÇO
Pablo Rossi, piano
Grande Auditório do Masp
Avenida Paulista, 1578 (informações: 3256-0223)
Hoje, dia 25, às 21 horas
Ingressos: R$ 70
www.ingressorapido.com.br

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