Uma conversa com Leonard Slatkin

Uma conversa com Leonard Slatkin

João Luiz Sampaio

28 Junho 2011 | 07h56

“Não há nada como estar em uma sala de concertos. E o desafio atual é convencer as pessoas disso.” A conversa mal começara e o maestro norte-americano Leonard Slatkin já pregava seu credo. Nas últimas décadas, à frente de algumas das principais orquestras americanas, ele criou diversos projetos de formação de plateia – e, ao mesmo tempo, é um dos regentes atuais mais atentos à música nova. “A orquestra é um organismo vivo e precisa se mostrar assim para as plateias.” Slatkin chega hoje a São Paulo, acompanhado da Filarmônica de Roterdã. Faz dois concertos na Sala São Paulo, pela Sociedade de Cultura Artística. “Pensamos em um repertório que fosse o mais variado possível”, diz ele, por telefone, de Lima. “E também queríamos criar um contraste entre obras mais leves e outras mais densas.” Assim, nas duas apresentações, a primeira parte tem a Sinfonia n.º 100, de Haydn, e o Ensaio n.º 2 para Orquestra, de Samuel Barber. “Na segunda parte, uma obra para cada dia: a Sinfonia n.º 4 de Tchaikovski e a Sinfonia n.º 2 de Rachmaninoff. São peças românticas, que exigem muito dos músicos e carregam contrastes e nuances interessantes de recriar.” Sobre o Barber, Slatkin explica: “É uma peça curta e apenas um pequeno exemplo de um universo muito mais amplo que é a produção do compositor. Mas é sempre bom poder tocar algo diferente dele, que não seja o Adagio para Cordas, já tão famoso”. Slatkin dirige atualmente a Sinfônica de Detroit, que no início do ano passou por uma paralização em consequência de uma greve dos músicos, em busca de salários e condições melhores. Ele se diz contente com a volta ao trabalho, mas reconhece que este é um momento delicado. “Não há, no entanto, soluções fáceis. Tudo está interligado. Orquestras precisam atrair o público para, cada vez mais, conseguirem apoio, patrocínio. Mas, com a decadência da educação musical, as pessoas têm se distanciado dos concertos. Eu me lembro que, quando saí da escola, cantava no coro e tocava em pequenos conjuntos. Hoje, quem faz isso?” Apesar das constatações, o discurso do maestro não se encerra com notas pessimistas. “A internet é um veículo importante de divulgação do nosso trabalho. Quando transmitimos concertos pelo nosso site em Detroit, gratuitamente, temos a esperança de que o internauta possa ir à sala de concertos. É para isso que trabalhamos.” Em seu site, Slatkin mantém um diário em que conversa com o público, fala da sua rotina, dos concertos, das peças que está estudando ou mesmo das impressões de viagens. “A palavra-chave, hoje, é o diálogo”, diz. Ele conta que, no começo de 2012, vai lançar um livro em que discute o papel do maestro nos dias atuais, sua função social, o sentido da direção artística. “Refletir sobre isso me parece necessário. Está equivocado um maestro que hoje ainda considera Karajan como modelo. Os tempos mudaram.”