Uma conversa com a pianista Katia Labèque

Uma conversa com a pianista Katia Labèque

Pianista francesa, que se apresenta em duo com a violinista Viktoria Mullova, fala do repertório dos recitais, que vai de Mozart a Arvo Pärt e Toru Takemitsu

João Luiz Sampaio

28 de setembro de 2015 | 20h07

Um duo de estrelas fecha amanhã, terça, e quarta, a temporada deste ano da Sociedade de Cultura Artística (a programação de 2016, aliás, já foi divulgada). De um lado, a pianista francesa Katia Labèque; de outro, a violinista russa Viktoria Mullova. Juntas, elas vão interpretar um programa que inclui obras de Mozart (Sonata nº 35 KV 526), Schumann (Sonata para Violinio e Piano nº 1), Toru Takemitsu (Distance de Fée), Arvo Pärt (Fratres) e Ravel (Sonata para violino e piano). “A ideia é misturar peças clássicas do repertório, como Mozart, Schubert e Ravel, com compositores que nós duas consideramos clássicos de nosso tempo: Pärt e Takemitsu”, diz Katia Labèque na entrevista a seguir.

 

Katia Labèque e Viktoria Mullova

Katia Labèque e Viktoria Mullova

 

De Mozart a Arvo Pärt e Toru Takemitsu, você e Viktoria Mullova estão propondo uma jornada musical pelo tempo. Como definiria o programa? Qual era a ideia por trás dele?

A ideia é misturar peças clássicas do repertório, como Mozart, Schubert e Ravel, com compositores que nós duas consideramos clássicos de nosso tempo: Pärt e Takemitsu.

Ao longo de boa parte do século 20, houve uma separação entre a nova música que era criada e o público. Arvo Pärt, no entanto, atingiu enorme popularidade. Como explicar isso? O que em sua música a atrai?

Sua música tem um lado mágico que é muito difícil de descrever se você nunca passou pela experiência de ouvi-la. Muitos compositores já tentaram imitar a linguagem dele, mas ele é único no gênero que pratica.

Os outros dois autores do século 20 presentes no programa são Takemitsu e Ravel. O poema que inspirou Takemitsu a criar Distance de Fée fala de uma “criatura transparente” no “labirinto do ar”. Nessa “transparência” você enxerga uma influência de autores franceses, como Debussy ou mesmo Ravel?

Takemitsu é definitivamente influenciado por autores franceses. Basta ouvir um belo concerto escrito por ele para dois pianos e orquestra, Quotation of Dreams, que é baseado em La Mer: ele define perfeitamente o seu amor por nossa cultura e música.

Qual a sua visão a respeito da Sonata de Ravel e seu flerte com o jazz?

Ravel foi um grande admirador do jazz e sua viagem para a América só reforçou essa relação. Ele costumava transcrever solos de trombone em clubes de jazz torcendo que músicos e orquestras se interessassem por eles, mas quando voltou para a França muitos disseram a ele que era impossível tocá-los e que, provavelmente, ele havia se equivocado nas transcrições. Claro, ele não estava errado, mas a técnica clássica para os metais naquela época não era tão avançada quanto a do jazz. E isso certamente influenciou sua maneira de escrever. Ele foi o primeiro a encorajar compositores americanos durante suas palestras em universidades a nunca abrir mão de suas raízes. O segundo movimento da Sonata é definitivamente influenciado pelo jazz, assim como acontece com muitas outras peças – passa pela minha cabeça agora seu concerto para a mão esquerda e o fato de que, ao escrevê-lo, ele tinha partituras de Gershwin em seu piano. Mas, se é preciso saber de onde essa música vem, é necessário também entender que não se trata de imitação do jazz. A presença do jazz tem mais a ver com sensações e com o tempo. Enfim, não é o caso do primeiro e do terceiro movimentos, que não são tão influenciados pelo jazz, mas a peça é um exemplo maravilhoso do que a música francesa pode ser.

 

Serviço
Katia Labèque & Viktoria Mullova
Dia 29 de setembro, às 21h
Dia 30 de setembro, às 21h
Sala São Paulo (Praça Júlio Prestes, 16)
Ingressos aqui

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