Uma conversa com a violoncelista russa Tatjana Vassiljeva

Uma conversa com a violoncelista russa Tatjana Vassiljeva

Violoncelista russa se apresenta esta semana com a Orquestra Sinfônica Municipal, interpretando o "Concerto de Elgar"

João Luiz Sampaio

04 Agosto 2015 | 21h00

A violoncelista russa Tatjana Vassiljeva interpreta, nesta quarta e quinta, o Concerto de Elgar, no Teatro Municipal de São Paulo. Ela estará ao lado da Orquestra Sinfônica Municipal e do maestro Cristian Arming – e o programa terá ainda o Adagio para Orquestra de Cordas, de Guillaume Lekeu, e a Sinfonia de César Franck.

Vassiljeva começou a carreira ainda na infância, venceu concursos importantes (como o Prêmio Rostropovich) e tornou-se, hoje com 38 anos, uma das principais instrumentistas de sua geração. Solista de algumas das principais orquestras do mundo, ela se dedica igualmente à música de câmara e tem entre seus parceiros músicos da Filarmônica de Berlim. Lançou ainda um disco solo dedicado à produção contemporânea para violoncelo. Sobre sua trajetória, o carinho pela música nova, a melancolia russa e o concerto de Elgar, ela concedeu a seguinte entrevista.

tatjana

Você vai interpretar o Concerto de Elgar. Como vê a peça?
É um dos mais famosos e belos entre todos os concertos para violoncelo. Todo mundo conhece a lendária gravação de Jacqueline du Pre e eu conheço até alguns violoncelistas que não tocam a peça, de tão intimidados que se sentem! A escrita é bastante lírica, com enorme profundidade emocional e um toque melancólico – e este é o tipo de música do qual me sinto muito próxima, afinal nós russos somos famosos pela nossa melancolia! Mas, falando sério, sinto que o concerto expressa emoções universais com as quais todos podem se relacionar e toca a todos de um modo simples e fundamental. Toda oportunidade de tocá-lo é uma alegria, uma ocasião especial.

Você trabalhou bastante com o compositor polonês Krysztoff Penderecki nos últimos anos. O que a atrai particularmente em sua música?
Eu o conheço há muitos anos, desde que estudava com David Geringas, e trabalhamos juntos em turnês, com ele regendo. Também fui convidada para gravar seu segundo concerto para violoncelo para o selo Naxos, o que foi um grande prazer. Esta peça é um desafio enorme pois contém muito drama e apresenta diferentes paisagens sonoras – às vezes frenéticas e perturbadoras, mas com passagens líricas e melodiosas. Do ponto de vista técnico, é uma peça interessante de montar: para o solista, há muitas notas a tocar e alguns problemas a resolver, e você não consegue descansar muito, o que torna a concentração muito importante! Outra obra que adoro é seu Concerto Grosso para três violoncelos, muito divertida de tocar e com características similares: muitos ritmos, passagens melódicas bonitas e muito drama. Para qualquer um que não conheça a música de Penderecki, é uma peça perfeita para começar.

Você gravou um CD apenas com peças solo de compositores do século 20. Como você definiria o repertório atual para o violoncelo?
Para ser sincera, sinto que, apesar de muitos violoncelistas seguirem na direção de diferentes estilos musicais, tocando arranjos de pop, rock e jazz, não há grandes obras escritas para violoncelo pelos compositores mais conhecidos, pelo menos não desde Lutoslawski, Penderecki e outros nomes dessa geração. Isso posto, ouvi dizer que a compositora coreana Unsuk Chin compôs um concerto para violoncelo em 2013 e estou curiosa para conhecê-lo. Como mãe de uma menina de 1 ano, não tenho conseguido muito tempo para descobrir novas peças, mas não vejo a hora de poder fazer isso. Como quis mostrar com meu disco, o violoncelo oferece muitas possibilidades aos compositores, talvez uma maior variedade de sons do que a de muitos outros instrumentos. Espero que jovens compositores aceitem o desafio de escrever mais para nós violoncelistas.

Como definiria a importância da música de câmara em seu trabalho?
A música de câmara sempre foi central no meu trabalho. Não acredito que você possa ter uma compreensão de qualquer música, seja sinfônica ou solo, se você não toca música de câmara. Uma das coisas mais importantes é aprender a ouvir seus colegas, como tocar juntos e equilibrar as partes, saber quando você é importante e quando não é vital! Além disso, como uma violoncelista solista, é um enorme prazer tocar compositores diferentes e tornar-se parte de um time, em vez de tocar sozinha. Tenho muita sorte pois, há anos, tenho tocado com músicos da Filarmônica de Berlim e, mais recentemente, da Concertgebouw, ou seja, difícil encontrar parceiros melhores! No final, todos os concertos são peças de música de câmara em maior escala e tocar em grupos menores é vital na preparação para entender a orquestra e o maestro como parceiros.

SERVIÇO
Teatro Municipal de São Paulo.
Quarta, dia 5/8, e quinta, dia 6/8
De R$ 20 a R$ 70
Bilheteria: 3053-2090 ou pelo site.