Uma chance para a nova ópera

Uma chance para a nova ópera

João Luiz Sampaio

12 de outubro de 2009 | 18h00

Gerald Finley em cena de

Assisti ontem “Dr. Atomic”, de John Adams, uma das óperas do festival de exibições no cinema de produções do Metropolitan Opera House. A obra retrata os momentos finais da criação da bomba atômica e flagra os cientistas ansiosos pelos resultados do teste que está prestes a acontecer – e angustiados com as consequências da criação de uma arma com tamanho poder de fogo. Os cantores são muito bons (o barítono Gerald Finley como Oppenheimer, Richard Paul Fink como Teller, a mezzo Meredith Arwady como uma índia americana e uma revelação, a mezzo Sarah Cook, como Kitty Oppenheimer, são os destaques); a produção é muito bonita e funcional; a orquestra do Met soando como poucas, comandada por Alan Gilbert, o novo diretor da Filarmônica de Nova York. Ou seja, as condições são as ideais e, portanto, temos um excelente contexto para julgar a nova ópera de Adams, em parceria com Peter Sellars, autor do libreto.

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A música de Adams pede por grande orquestra, além de conter material pré-gravado. Ela é inventiva do início ao fim, não faz concessões, explora contrapontos, dissonâncias,harmonias, cria linhas de canto que fogem ao óbvio, que se misturam de maneira intrínseca com o estado de espírito dos personagens e o clima de angustiante dúvida que perpassa toda a história. O problema da ópera, no entanto, é o texto de Sellars. O conceito em si não é ruim: ele cria os diálogos e monólogos a partir de cartas de época e de poemas nos quais, em momentos de maior dúvida sobre a criação da bomba, Oppenheimer buscava refúgio. Dramaturgicamente, se coloca uma situação interessante: a oposição entre música e poesia em determinados momentos da história gera contraster que nos levam diretamente às sensações do cientistas, talvez de maneira mais eficiente que qualquer texto tradicional pudesse fazer. No entanto, à medida em que a narrativa se desenvolve, a ideia começa a ser repetida como mero recurso, as cenas vão se tornando prolixas e o texto acaba resultando em um pastiche sem pé nem cabeça. Bons exemplos são as cenas destinadas a Kitty Oppenheimer, personagem forte, com uma música que é das mais interessantes do espetáculos, que acaba se tornando meramente acessório. Nas cenas corais ou em diálogos originais fica ainda mais evidente a falta de ritmo dramático do texto. E isso incomoda especialmente porque vai no sentido totalmente contrário à música de Adams. Uma pena que a sessão estivesse tão vazia, ao contrário das demais do dia, com óperas como “O Barbeiro de Sevilha”, que estiveram lotadas. Até domingo que vem, ainda dá tempo: dêem uma chance à ópera do presente.

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