Uma certa sinfonia

Uma certa sinfonia

João Luiz Sampaio

03 de agosto de 2009 | 16h15

Mahler por Eduardo Baptistão

Minha primeira “Nona Sinfonia” de Gustav Mahler foi na Argentina, Buenos Aires, Teatro Colón, Filarmônica de Berlim, Claudio Abbado, há quase dez anos. Eu lembro pouco daquela experiência – ela foi de tal forma gigantesca que soterrou lembranças pontuais. Mas de uma coisa eu não esqueço. Sentei em um dos camarotes lá no alto, sobre o palco, o que me permitia observar a expressão de Abbado. No adagio, quando a tensão da música de Mahler ultrapassa limites e deixa às vezes entrever um lirismo, ainda que doído, formando um mosaico de problemas e resoluções musicais, eu não conseguia desviar o olhar do rosto dele – Abbado contorcia-se, respirava, sorria; e, em seguida, a gente sentia a música ganhando as formas da expressão do seu rosto.

Sete anos mais tarde, o palco era o Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Sinfônica da Petrobras e o maestro Isaac Karabtchevsky. Não havia, então, sorriso possível. Cada resposta da orquestra parecia apenas reforçar a impossibilidade de uma solução para as perguntas feitas pelo compositor. Na última de suas obras, a morte pairava onipresente sobre a partitura, sem se transformar em certeza, apenas em dúvida. E, finalmente, em silêncio. Aqueles instantes finais da peça, de reclusão tocante, pareciam dizer que a música havia perdido a sua batalha e voltava à ausência de som. À ausência de vida. Nos dias que se seguiram, não parei de ouvir a gravação de Leonard Bernstein em Viena, explosiva, dramática. Até que não dei conta mais e deixei o disco de lado.

Na semana passada, mais uma vez Abbado, agora em DVD, com a Orquestra Jovem Gustav Mahler (EuroArts). A sinfonia virou música de câmara, um diálogo entre instrumentos, entre ideias, entre possibilidades. O fim do adagio nunca foi tão silencioso: as luzes em volta da orquestra vão desaparecendo aos poucos. A segurança de Abbado, o olhar firme para os músicos. E aquele bando de molecada olhando para ele o tempo todo, descobrindo Mahler por meio de seus gestos, de sua expressão. E a música que é o fim de Mahler, o fim do século 19, o fim de um conceito de ser humano, renasce pelas mãos de uma nova geração.

Mas então chegou Daniel Barenboim e sua Staatskapelle Berlim. A tensão voltou. Mas, quando cantam – seja o desespero, seja a resignação, seja a alegria possível –, o que as cordas nos dizem é que isso tudo é viver; que estar vivo é repassar significados, encontrar novos caminhos que nos levem em direção a nós mesmos. E aos outros. Mahler foi à essência de si mesmo para retratar um mundo do qual não se sentia parte. Mostrou que não se deve lutar contra extremos à primeira vista excludentes – e que, para lembrar Drummond, de jardins improváveis pode nascer uma flor.

p.s.: a caricatura de Mahler reproduzida acima é do Baptistão, grande artista, cujos desenhos você encontra em seu blog.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.