Uma Bohème para corações apaixonados

Uma Bohème para corações apaixonados

João Luiz Sampaio

07 de janeiro de 2010 | 22h07

Quando foi anunciada, no início de 2007, a realização de uma versão filmada da ópera “La Bohème”, de Puccini, não havia dúvida alguma: o casal protagonista teria de ser interpretado pela jovem dupla que, então, dominava a cena operística internacional – o tenor mexicano Rolando Villazón e a soprano russa Anna Netrebko. Dois anos depois, ele já abandonou provisoriamente os palcos por problemas nas cordas vocais e ela segue atuando, mas já sem o fuzuê de mídia de dois anos atrás. São coisas do perverso mercado da ópera atual, em que carreiras começam e terminam com a mesma rapidez. O que, no entanto, não diminui os resultados do filme que, dirigido por Roberto Dornhelm, é uma comovente e sensível interpretação de uma das óperas favoritas do repertório.

O filme está sendo lançado em DVD (Kultur, importado), tendo como extras um breve making-of e entrevistas com elenco e diretor. Dornhelm explica que não quis se “aliar a tendências modernosas” e reinventar a ópera de Puccini. Segundo ele, a magia toda está na reconstrução de uma Paris de sonhos, onde um poeta e uma florista, contra todas as probabilidades, da situação financeira difícil à doença terminal que acabaria com a vida da moça, experimentam o despertar de sensações provocadas pela paixão. E Puccini retrata isso com maestria. A cena do primeiro ato em que Rodolfo e Mimi se conhecem e usam de artimanhas (uma vela que se apaga, uma chave que se esconde) para prolongar a permanência juntos é delicada, bem-humorada, deixa a gente com um sorriso no rosto.

Dornhelm recria em estúdio a Paris do século 19, tomada pela neve. Intercala as cenas da ópera com flashbacks em preto e branco, criando uma aura sensível de nostalgia à medida que os amantes se afastam para, no fim da ópera, declararem uma vez mais seu amor. O diretor abusa dos closes e das justaposições entre passado e presente. Conta, em entrevista, que todo o projeto nasceu em torno da dupla Villazón/Netrebko. Os dois são jovens, bonitos e talentosos. Ele tem um timbre escuro, que lembra o jovem Plácido Domingo; a voz dela é poderosa, com uma extensão que a leva dos graves aos agudos sem grandes complicações, criando efeitos muito bonitos. Estão secundados por um bom elenco misto de cantores/atores. O destaque é a Musetta da soprano americana de origem africana Nicole Cabell. E, para o público da ópera, há piadinhas internas, como a participação especial de Ian Hollaender, diretor que reinou na Ópera Estatal de Viena durante três décadas, como Alcindoro, o velho rico com quem a cantora Musetta, amante do pintor Marcello, tem um romance. A regência de Bertrand de Billy, à frente da Orquestra da Rádio da Baviera, é sensível, atenta a detalhes, não perde em momento nenhum a pegada dramática, dando fluência e consistência à narrativa.

Filmes baseados em óperas foram uma tendência nos anos 80 – Franco Zeffirelli dirigiu “Tosca”, “Traviata” e “Otello”; Francesco Rossi fez “Carmen”; Joseph Losey criou o “Don Giovanni” definitivo. Curioso que, com o passar do tempo e a presença cada vez maior de cantores que também sabem atuar, projetos como esses se tornaram raros. Em seu lugar, surgiram nos últimos anos as transmissões para cinema de montagens de teatros mundo afora. De um jeito ou de outro, projetos como a “Bohème” de Dornhelm mostram que a ópera, com suas histórias trágicas e muitas vezes pouco verossímeis, continua a falar com propriedade para nossa época de temas universais como o amor.

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