Um Porgy & Bess “branco” demais?

Um Porgy & Bess “branco” demais?

João Luiz Sampaio

08 de janeiro de 2010 | 16h22

O cara é grande especialista na interpretação historicamente informada de Bach, Mozart, Beethoven. Mas, como seu novo projeto, Nicolaus Harnoncourt voltou-se a uma ópera de… Gershwin. Sua gravação de Porgy and Bessa acaba de ser lançada. E, claro, a imprensa internacional – de jornalões como o Guardian a revistas especializadas como a Gramophone – voltaram o foco a ela. Nas duas publicações, Harnoncourt fala de sua relação com a ópera. “Eu a conheci muito antes de Mozart ou de Bach. Queria reger esta peça já 1935 (quando tinha cinco anos de idade). Meu tio morava em Nova York e ganhou de Gershwin, de quem era amigo, uma partitura para piano de ‘Porgy and Bess’, e ele a mandou a meu pai na Áustria”, disse ele ao Guardian. Não é a primeira vez que Harnoncourt sai de seu habitat natural. Há alguns anos, gravou “Aida”, de Verdi. Aliás, esse negócio de habitat me incomoda um pouco. Por ser especialista em autores barrocos, um músico deveria evitar um pilar do repertório romântico? Se há um critério na escolha de repertório, deve ser a personalidade e sensibilidade do artista. A gente depois ouve e diz o que acha – no caso da “Aida”, aliás, a leitura não me convence nenhum pouco.

“Porgy & Bess” narra a história de Porgy, um negro que vive em uma comunidade pobre de Charleston, na Carolina do Sul, e tenta resgatar a jovem Bess de seu amante violento, o traficante Sportin’ Life. Para a estreia, nos anos 30, Gershwin formou um elenco composto exclusivamente de afro-americanos, uma maneira, segundo ele, de dar espaço a artistas que não costumavam ser contratados pelos teatros e casas de ópera americanos. Na “Gramophone”, o crítico Edward Seckerson coloca uma questão delicada em sua análise da gravação (selo RCA). Harnoncourt trabalha com a Orquestra de Câmara da Europa; e o Coro Arnold Schoenberg, composto por cantores brancos, na sua maioria de origem alemã. “Esta é uma ópera em que não se pode ignorar a cor da pele e estou realmente surpreso que o espólio de Gershwin tenha autorizado as escolhas do maestro – e que ele próprio as tenha considerado viáveis musicalmente”, escreve. “Para resumir, o som e a postura de um coro afro-americano é completamente diferente (…). Estou certo de que vocês vão concordar que a contribuição do coro em It Ain’t Necessarily So é tão branca que chega a ser embaraçosa”. O que vocês acham?