Um mestre do canto, único e universal

Um mestre do canto, único e universal

João Luiz Sampaio

25 de maio de 2012 | 21h25

Uma semana já se passou desde a morte do barítono Dietrich Fischer-Dieskau mas, com atraso, aqui vai, na íntegra, o texto que escrevi sobre ele para o “Caderno2+Música”, publicado no sábado passado.

Fischer-Dieskau com Sviatoslav Richter

Ao completar 80 anos, em 2005, o barítono alemão Dietrich Fischer-Dieskau rompeu um silêncio de pouco mais de uma década e concedeu uma entrevista ao britânico The Guardian. Falou, então, de um paradoxo que ocupava sua mente. “Aqueles que mais conquistam muitas vezes são os mais facilmente esquecidos”, disse. “Não gostei de completar 70 anos e gosto ainda menos de fazer 80. É o começo do último capítulo. Queria poder ignorar tudo isso.” O último capítulo de uma das mais ricas trajetórias artísticas do século 20 terminou ontem. Às vésperas de completar 87 anos, no dia 28, Fischer-Dieskau morreu em sua casa na Alemanha, segundo informações dadas por sua mulher, a soprano Julia Varady. Estava, segundo ela, rodeado por familiares. A causa da morte não foi divulgada. Quando esteve no Brasil em 2004, para um recital no Teatro Municipal de São Paulo, o barítono alemão Andreas Schmidt brincou quando indagado sobre a importância de Fischer-Dieskau, com quem estudou, no cenário musical. “Ele sacaneou todo mundo. Os cantores de sua época simplesmente não tinham como cantar, porque todo mundo queria ele. E, para nós, que viemos depois, fica sempre a sua sombra. E que sombra.” O episódio dá conta da importância de Fischer-Dieskau. Ele foi mais do que uma grande voz. Ao longo de 50 anos de carreira, criou um universo só seu no mercado internacional. Sua discografia inclui 60 papéis em óperas, mais de uma centena de cantatas e oratórios e cerca de 3 mil canções. Deu nova ênfase às palavras, à pronúncia e, com uma qualidade técnica e de interpretação ímpares, abriu nossos ouvidos à experiência da descoberta de um repertório imenso, seja na recriação das obras-chave do romantismo alemão, seja no resgate ou na revelação de autores e ciclos menos conhecidos, dos barrocos aos modernos. Ao longo de sua trajetória, trabalhou bem o desenvolvimento das possibilidades da própria voz, que ele soube expandir em direção à maturidade. O pianista Gerald Moore, por exemplo, seu parceiro em boa parte das gravações que dedicou ao universo do lied, escreveu em sua biografia, Am I Too Loud?, que “bastou que ele cantasse uma só frase para que eu me desse conta de que estava na presença de um mestre”. Outro grande do piano, o russo Sviatoslav Richter, concordaria. “Foi o maior cantor do século 20”, escreveu em seus diários. Para a soprano Elisabeth Schwarzkopf, “era um deus”. “Sua atuação redefiniu a história e a cultura do canto”, disse ontem o presidente da Academia das Artes Alemãs, Klaus Staeck. Fischer-Dieskau nasceu em Berlim em 1925. Lá fez sua estreia em 1943, durante a Segunda Guerra Mundial, cantando o ciclo Winterreise (Viagem de Inverno), de Schubert, que se tornaria um dos marcos de sua carreira, gravado por ele diversas vezes ao longo dos anos. “Um bombardeio atingiu a cidade durante o recital e eu e o público, cerca de 200 pessoas, fomos obrigados a buscar refúgio em um abrigo antibombas. Duas horas e meia depois, voltamos ao teatro e terminei o recital”, lembrou ele em sua biografia. Um ano mais tarde, foi obrigado a se alistar no exército e acabou capturado pelas forças aliadas na Itália. Passou dois anos preso e, ao voltar à Alemanha, em 1947, foi contratado para cantar o Réquiem Alemão, de Brahms. Foi o marco oficial do início de sua carreira, assim como um ano mais tarde estrearia no mundo da ópera cantando o papel do marquês de Posa, no Don Carlo, de Verdi (do qual há disponível uma gravação comercial feita a partir de um registro de rádio). Nos dez anos seguintes, ele começaria a percorrer o mundo, fazendo suas estreias em teatros como o Covent Garden, de Londres, o Scala, de Milão, e o Metropolitan, de Nova York. Em Salzburgo, fez sua estreia cantando Mahler sob a regência de Wilhelm Furtwängler, a quem se referiria mais tarde como sua “maior influência”. “Ele me disse certa vez que o mais importante para um artista era formar, com a plateia, uma comunidade de amor pela música, criar um só sentimento em meio a pessoas de origens diferentes. Vivi essa ideia durante toda minha carreira.” Legado múltiplo. No universo da ópera, suas atuações foram marcantes. Do repertório alemão, deixou registros preciosos de óperas de Wagner e Strauss. Com Karajan, gravou o Wotan de Ouro do Reno; com Georg Solti e Karl Böhm, entre outros, O Crepúsculo dos Deuses, Salomé, Arabella e A Mulher Sem Sombra. No repertório italiano, nunca foi unanimidade. Para alguns críticos, faltava à sua voz certo “elemento mediterrâneo”, teoricamente mais adequado à criação de autores como Verdi e Puccini. Mas a inteligência musical e o cuidado com as palavras fazem de seu Falstaff (sob regência de Leonard Bernstein), seu Rigoletto (com Rafael Kubelik) ou mesmo de seu Scarpia (na Tosca regida por Lorin Maazel e estrelada por Birgit Nilsson e Franco Corelli) marcos do gênero na história da indústria fonográfica. É no repertório de canções, no entanto, que seu legado se multiplica de modo ainda mais contundente, em dezenas de gravações. Schumann. Schubert, Mendelssohn, Strauss, Wolf, Brahms, Mahler, Zemlinsky, Schoenberg, Berg – seus registros do cancioneiro germânico são a melhor porta de entrada a este repertório. Da mesma forma, estabeleceu parâmetros de interpretação de autores como Ravel, Debussy, Berlioz, Fauré, além de se dedicar às canções de criadores contemporâneos como Samuel Barber, Albert Reimann, Max Reger, Ferruccio Busoni ou Othmar Shoeck. Com Vladimir Ashkenazy, gravou em Berlim a Suíte Sobre Versos de Michelangelo Buonarrotti, de Shostakovich; em Londres, participou da estreia de uma das mais importantes obras criadas no século 20, o Réquiem de Guerra, do compositor britânico Benjamin Britten. A diversidade de repertório ele atribuía a um hábito de infância. “Quando tinha dois anos, cantarolava o tempo todo, imitando as vozes que eu ouvia”, dizia, não sem um certo tom jocoso. De fato, como explicar o fenômeno de uma voz para a qual não parecia haver limites? Em suas atuações, impressionam a flexibilidade e a riqueza de coloridos. A técnica nasce como consequência da interpretação. E, talvez por isso, um timbre tão particular como o dele seja capaz de nos dar quase sempre uma sensação de universalidade. Acontece com poucos.

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