Um “Eugene Onegin” camerístico

Um “Eugene Onegin” camerístico

Tanto na concepção cênica quando no desempenho musical, montagem da ópera em cartaz no Teatro Municipal de São Paulo aposta em tom intimista

João Luiz Sampaio

04 de junho de 2015 | 16h50

Cena de

Cena de “Eugene Onegin”, de Tchaikovsky, em cartaz no Theatro Municipal de São Paulo/Amanda Sena/Divulgação

A certa altura, na longa madrugada em que hesita sobre declarar ou não seu amor por Oneguin, Tatiana nos diz: “Apareceste em meus sonhos,/ Invisível, já era meu querido,/ Teu olhar miraculoso me afligia, / Tua voz soava na minha alma. / Há tempos… não, não foi um sonho.” Foi sim. Este “homem invisível”, o texto parece nos dizer, Tatiana amava antes mesmo de conhecê-lo. E o amor que prescinde do outro é, antes, uma ideia construída à nossa semelhança – e o objeto da paixão, a manifestação de nossos sonhos, desejos, ilusões e inseguranças.

Tocando nesses temas, Eugene Onegin, de Tchaikovsky, torna-se acima de tudo uma ópera sobre o desejo de amar – e sua impossibilidade. Ela se reflete na recusa de Onegin, claro. Mas também no particular senso de honra de Lensky, na memória que Larina e Filipevna têm de tempos passados ou na certeza de que, no final das contas, não será a paixão a unir Tatiana ao Príncipe Gremin. A ação externa da ópera, de certa forma, é a soma de atitudes e rompantes de personagens que, na incapacidade de lidar e vivenciar aquilo que sentem, nos revelam um mundo interior fascinante e complexo.

Isso dá um caráter intimista à partitura. E é nessa percepção que está o grande trunfo da montagem do diretor italiano Marco Gandini na atual produção em cartaz no Teatro Municipal de São Paulo. Os tecidos, as transparências, o jogo de espelhos formam um pano de fundo quase neutro, mais preocupado em sugerir do que afirmar, deixando que o excelente trabalho de atores – e a luz de Caetano Vilela – assumam o protagonismo no desenvolvimento de uma montagem funcional.

Mas esse intimismo também se faz presente na interpretação musical – e está nessa qualidade quase camerística o que a produção oferece de melhor. Ela se revela na atuação da Orquestra Sinfônica Municipal, que volta a revelar a construção de uma personalidade própria, agora sob regência de Jacques Delacôte; ou no trabalho matizado do Coral Lírico Municipal, regido por Bruno Faccio. Mas, principalmente, na atuação de um time notável de grandes solistas, que nos ofereceram olhares bastante sólidos e reveladores sobre seus personagens.

O cuidado com a interpretação do texto, a partir do qual consegue extrair efeitos contrastantes e de rara beleza, foi a marca do Lensky do tenor Fernando Portari e da Tatiana de Svetlana Aksenova. Como Olga, Alisa Kolosova criou na medida correta, sem exageros ou caricatura, um oásis de leveza em meio ao drama. Miguel Geraldi conseguiu a proeza de fazer da ária de Triquet um dos momentos mais sofisticados musicalmente do espetáculo, assim como a grande dama do canto russo Larissa Diadkova emprestou autoridade comovente a Filipevna, acompanhado de perto pela Larina de Alejandra Malvino e pela delicadeza com que Vitalij Kowaljow nos fala do amor no papel do Príncipe Gremin. Resta o Onegin de Andrei Bondarenko. A voz não é grande – e ele acaba eclipsado pelo restante do elenco em certas passagens. Mas o caráter introspectivo redimensiona o personagem de e, principalmente, acaba por flagrá-lo de maneira mais contundente em sua “revelação” final.

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Eugene Onegin, de Tchaikovsky
Sábado, domingo e terça
Theatro Municipal de São Paulo
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