O sorriso de Maria João

O sorriso de Maria João

João Luiz Sampaio

04 de abril de 2010 | 19h47

Em Lauro de Freitas, durante a entrevista, fotografados por Leo Azevedo

Em Lauro de Freitas, durante a entrevista, fotografados por Leo Azevedo

Há mais ou menos um ano, cheguei perto. No Rio, no horário combinado, eu estava no hotel – mas ela não me recebeu. Insisti um pouco, uma ligação, outra, mas entendi que a conversa não aconteceria. E, com tempo livre antes da volta a São Paulo, fui caminhar um pouco sem sentido por Copacabana, decepcionado, mas aos poucos recuperando a memória do concerto da noite anterior, em que ela havia interpretado o “Concerto nº 3” de Beethoven.

Primeiro Movimento… Um tema, depois o outro; da orquestra ao piano, da certeza à contradição, a magia ganha corpo. A pianista entra na cadência, sombria, recupera a delicadeza, volta ao tema; deságua em intensidade, recomeça o diálogo com a orquestra. Em instantes, o crescendo final, Beethoven nos diz algo; acredita. Segundo Movimento… Ela olha de lado para o flautista, é como se estivessem apenas os dois no palco. Curva-se em direção ao teclado, recomeça, aos poucos levanta a cabeça, os olhos fechados, joga o corpo para trás, abraçado pelo som dos violinos. Terceiro Movimento… Ao maestro, sorri discretamente. Violoncelo, violas, violinos. Ela os acompanha com o olhar, o tom sombrio, em suspenso; as mãos aos poucos se levantam, tocam o piano, que mais uma vez parece indicar um caminho possível.

Na semana passada, depois de dois meses de negociações, nova possibilidade de encontro. Parti para a Bahia com o Beethoven na mente. E ela me recebeu com um sorriso. A conversa seguiu em ritmo saboroso, na varanda de casa, o sol abafado pelas plantas com as quais ela rodeou a casa. Seu sorriso é fascinante. Esconde tanto e, ao mesmo tempo, a entrega em todos os seus detalhes – ao menos aqueles que a nós, espectadores, é permitido vislumbrar. E desconcerta. Uma mulher que tem tudo – sucesso, fama, carreira, prestígio – mas que, mais importante, sabe que não precisa de mais do que sua casa, suas plantas, sua família. E sua música, a música que ganha sentido naquele espaço fugaz de tempo que separa as mãos e a mente do piano. E do som, que interrompe o silêncio e nos ensina sobre a vida.

E falamos, enfim, de Beethoven. “Ele é fundamental para qualquer músico. E, por mais estranho que possa parecer, para qualquer pessoa, em qualquer contexto. Foi um iluminado, um mensageiro que trouxe algo à humanidade, tocado por uma graça. Ele fala de tudo em suas obras, de disciplina, de desprendimento. O estudo de Beethoven substitui qualquer moral, qualquer religião. Não tenho necessidade de tocar Mozart, posso ficar anos sem ele. Mas não me afasto nunca de Beethoven. É um pouco o que acontece com Bach. Mas, no caso dele, a obra é como uma catedral, na qual entramos com reverência, com um senso muito claro do que para ele era o divino. Beethoven, não. É humano. Conversa com Deus, mas conversa conosco. Sua obra é o homem.”

A matéria a partir da entrevista você pode ler aqui.

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