Um encontro com Gubaidulina

Um encontro com Gubaidulina

João Luiz Sampaio

15 de junho de 2009 | 13h31

Nosso crítico Lauro Machado Coelho escreveu um pequeno texto sobre o encontro que a compositora Sofia Gubaidulina teve com músicos e público na sexta-feira, na Sala São Paulo. Coloco abaixo seu relato.

A oportunidade preciosa de um debate sobre os rumos da música contemporânea foi dada ao público desta cidade, no encontro de sexta-feira, na Sala São Paulo. Organizada pelo professor Rubens Ricciardi, a mesa-redonda com Sófia Asgátovna Gubaidúlina abordou aspectos fundamentais da produção dessa compositora, que acaba de nos visitar, e de sua situação dentro da música de hoje. Uma apresentação de Gubaidúlina – nascida em 1931, em Tchistópol, filha de um mulá (doutor na lei corânica) – foi feita aos 150 presentes pelo Dr. Marco Aurélio Scarpinella Bueno, autor de Shnittke: Música para Todos os Tempos (Algol Editora) e que, no momento, está preparando um estudo sobre a geração pós-Shostakóvitch dos compositores soviéticos. Bueno reconstituiu as etapas principais da carreira dessa aluna de Nikolái Peikô e Vissariôn Shebalín, obra balizada por peças marcantes como Noite em Mênfis, cantata sobre o texto de lápides funerárias egípcias; A Hora da Alma, sobre um poema de Marina Tsvietáieva; Offertorium, um concerto para violino dedicado a Gidon Kremer; ou a sinfonia Stimmen… verstummen (Vozes… Silêncio), ouvida neste fim de semana na Osesp. “Falei de como era difícil ser compositora de vanguarda na URSS de Bréjnev”, disse o Dr. Bueno. “Contei sobre a importância dos amigos intérpretes que contrabandearam suas partituras para o Ocidente, abrindo-lhe as portas para os festivais de música contemporânea – sem falar que foi a sinfonia Stimmen… verstummen… seu cartão de visitas para que se tornasse uma das compositoras mais importantes de sua geração. Tendo emigrado para a Alemanha em 1991 (hoje ela mora em Appen, próximo a Hamburgo), Gubaidúlina continua em plena atividade criativa abordando praticamente todos os gêneros musicais.”

Ajudada pela pianista da Osesp, Olga Kopylôva, que lhe serviu de intérprete, Gubaidúlina deixou clara a sólida formação recebida no Conservatório de Moscou, enraizada tanto no legado dos grandes compositores russos, quanto no vasto folclore eslavo, particularmente do Cáucaso. Respondendo ao maestro Antonio Neves, explicou que, como todo compositor soviético, teve uma necessária ligação forte com a música para cinema, modo indispensável de garantir o sustento financeiro, e de conseguir que a sua música fosse tocada por uma orquestra sinfônica.
Mas foi um tanto evasiva, ao responder a uma pergunta do jornalista Leonardo Martinelli sobre a dificuldade de trabalhar na URSS, nos anos em que a sua produção tinha de passar pelo crivo da União dos Compositores, dominada pelo reacionaríssimo e todo-poderoso Tíkhon Khrénnikov. Disse apenas, num tom amargurado, que “foram anos muito duros, em que não podia ser ela mesma”.
Quando a compositora Jocy de Oliveira traçou um paralelo entre a opinião de Stravínski, de que tinha de “começar do zero” em tudo o que fazia, ao contrário de Schoenberg, Berg e Webern, que “tinham por trás de si a tradição germânica”, e lhe perguntou se ela também se sentia assim, Gubaidúlina deu mostras de humildade, como artista, e de simplicidade, como ser humano. Explicou as suas limitações, ao se aprofundar no estudo das técnicas dodecafônica e serial, a necessidade de expandir seus recursos de escrita trabalhando com microtons e quartos de tom. Mas nunca achou que, de uma obra para a outra, estivesse “começando tudo de zero” – até mesmo porque, o que tinha atrás de si era uma tradição que, de Glinka a Prokófiev e Shostakóvitch, constitui-se em uma das mais ricas e estimulantes da cultura ocidentak.
Sobre a arte de compor demonstrou uma busca incessante pela forma musical, apesar de não conseguir definir com clareza qual seja esta forma ideal. Na sua opinião, a música erudita funciona, desde o final do Barroco, por meio de ciclos de alternância entre o que ela chamou de “período mais clássicos (predomínio da forma) e mais românticos (predomínio da emoção)”. Discorreu sobre Heráclito e “a incapacidade de entrarmos duas vezes no mesmo rio”, assim como a metafísica de Platão. Por outro lado, deve ter frustrado as expectativas de um dos ouvintes, que lhe perguntou como trabalhava as relações entre harmonia, timbre e ritmo. Candidamente, Sófia Gubaidúlina lhe respondeu: “Não tenho a menor idéia. É pura fantasia.”
Ao professor Paulo de Tarso, Sófia Asgátovna falou de sua religiosidade e de como a criação musical é, para ela,”uma forma de se comunicar com o Criador”. Lembrou que religiosidade significa re-ligio, ou seja, religar-se (reconectar-se) a Deus. Para isso, ela ora utiliza as seqüências numéricas formuladas por Fibonacci – o matemático italiano Leonardo de Pisa, do século XI –, assim como fez na sinfonia Stimmen… verstummen, dedicada ao maestro Guennádi Rojdéstvienski). Ora retorna à velha notação barroca que reconstitui, na partitura, uma cruz: as linhas horizontais significam o material; e as verticais representam o espiritual. É no cruzamento entre elas que se alcança o transcendente.
Ao professor Marcos Lucas, ela falou de sua experiência com o grupo Astréia, formado em 1975, parceria com os compositores e amigos Viátcheslav Petróvitch Artiômov e Víktor Ievsêievitch Súslin. A “experimentação com sons novos, praticando a improvisação livre”, irritou profundamente Khrénnikov e o establishment tradicional; e Súslin foi, por isso, banido da União dos Compositores. Mas, profissionalmente, diz Gubaidúlina, “foi um dos períodos mais felizes de minha vida”. A regra básica para o funcionamento do Astréia era trabalhar com instrumentos incomuns, de sonoridade pouco conhecida. O grupo deixou de existir em 1981 quando Súslin – que, para sobreviver, teve de trabalhar como varredor de rua – conseguiu emigrar para a Alemanha. Mas as suas atividades se reiniciaram em Hamburgo, em 1991, com Gubaidúlina, Súslin e o filho deste, Aleksandr Víktorovitch.
Ao compositor Gilberto Mendes, ela falou de sua admiração pelo jazz norte-americano (Duke Ellington e Dave Brubeck, principalmente), e de seu respeito pelos minimalistas Philip Glass e Johns Adams – apesar de não se identificar em nada com sua estética, que considera “repleta de elementos materialistas”. Disse que, para ela, Luigi Nono é “uma alma gêmea”: ela concorda com todas as idéias espressas por esse compositor italiano em seus ensaios. Da mesma forma, falou com muita simpatia de Olivier Messiaen, Krzysztof Penderecki e George Crumb, “impregnados de religosidade”.
Conversou com a platéia sobre a tríade básica para que a música funcione: compositor, intérprete e ouvinte. Reforçou que, para ela, o intérprete é peça fundamental na composição, dizendo que sempre pensa nele, ao escrever algo. Em função disso, manifestou a Rubens Ricciardi – com quem conversou sobre seu amor pelos instrumentos – a decepção com a música eletrônica e eletro-acústica: “nela, um dos elos da cadeia,, o do intérprete, se perde. Além disso, ao escrever música eletrônica, você depende muito da qualidade do meio – fitas e computadores – e isso vai além da decisão do compositor”. Em relação a isso, porém, fez referências elogiosas à qualidade do trabalho do IRCAM, de Paris.
Mas, uma vez mais, ao lhe perguntarem qual será o caminho para a renovação desse meio de composição, que já está com quase sessenta anos, respondeu com desarmante sinceridade: “não sei”. Gubaidúlina, aliás, evitou responder perguntas proféticas na linha do: “Para onde vai a música contemporânea?”. Mas obteve risadas da platéia ao falar do “ouvinte talentoso”, aquele que “está sempre disposto a ouvir uma obra nova, sem preconceitos.” E aos jovens compositores da platéia deu um conselho: “Nunca convidem seus colegas compositores para ouvir suas obras novas. Estes parecem ser os ouvintes menos talentosos…”
O Dr. Marco Aurélio Bueno lhe perguntou se acreditava haver diferença entre a mulher e o homem compositores ou se, na verdade, o que existe é “a música genuína”, como disse a sua compatriota Galina Ustvólskaia. Citando a pérola brahmsiana de que “é mais fácil um homem dar à luz do que uma mulher escrever música de qualidade”, Gubaidúlina disse que, de fato não vê diferença entre música escrita por homens ou por mulheres. Mas reconhece que o fenômeno da mulher compositora é algo recente, no universo da composição. Em sua opinião, caberá aos musicólogos do futuro desenvolver teorias que respondam a essa questão.
Ao fato, também lembrado pelo Dr. Bueno, de ela não ter escrito óperas (à exceção de um esboço inacabado, dos tempos do Conservatório), Gubaidúlina respondeu não se sentir à vontade com as regras impostas por esse gêner, apesar de apreciá-lo muito e de freqüentar os teatros líricos. Nada verdade, se nunca aceitou nenhuma das diversas encomendas que já lhe foram feitas, é porque não lhe agrada a idéia de ter de lidar com o cortejo de libretistas, cenógrafos, encenadores e pessoal técnico que esse tipo de espetáculo exige. A música orquestral lhe dá uma liberdade criativa muito maior.
Nesse sentido, contou como foi fascinante escrever para o koto, o instrumento típico japonês. Ela é, de resto, conhecida pelo apreço às sonoridades incomuns e à utilização que faz dos instrumentos percussivos (Perceptions, In principio era el ritmo, Hommage à Marina Tsvietaieva). lamentou não conhecer o imenso repertório percussivo brasileiro, herdado da África, com seus sons exóticos, produzidos pelos atabaques, bongôs e berimbaus. Mas deixou no ar a sugestão de pensar no assunto. Os “ouvintes talentosos” que estiveram presentes ao encontro não perdem por esperar.

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