Um dia

João Luiz Sampaio

19 Julho 2010 | 02h14

O dia, em Campos do Jordão, começou na noite anterior. Maria João Pires, de novo, com a Osesp. Agora, Beethoven. É estranho precisar de Beethoven? Ele aspira o eterno mas fala do que é presente. Mundano. Sorri com a dor, luta contra a resignação. Clama, briga – reivindica, pois se assume humano. Concerto para Piano nº 4. Sem magia. O piano cantou, a orquestra gritou. Na mistura de vozes, a mensagem se perdeu. Virou promessa, possibilidade. De um encontro que não aconteceu. No fim da manhã de hoje, voltaram ao palco. Olhares. Tudo pareceu mais sutil. Mas o diálogo parecia já ser uma possibilidade do passado.

No caminho de volta, Maria, Tony. Uma trompa, Brahms, concerto para piano, nº 2. Um tema, uma sinfonia, um movimento – quarto, Sinfonia nº 2, Brahms, de novo. À noite, Mahler, a despedida do mundo. Eternamente. E Strauss. Cores, inflexões, palavras. Quatro Últimas Canções. “E o espírito liberto, deseja vagar para o alto, em um voo livre, em direção à esfera mágica da noite.” Lucia Popp, Solti, Chicago. No que há de mais complexo, tudo soa natural, espontânea. A soprano é instrumento. Mas também é a música. Morte, exaltação da vida. Fim, é certo, mas com a crença em um recomeço que sonha com novas possibilidades.